“A curiosidade intelectual é o maior tesouro de que dispomos”.

É absolutamente verdade Professor. Permita-me que lhe diga que é extraordinário ouvi-lo condensar um modo de ser e de estar em dez vocábulos e uma oração. Não calcula também o quão motivador é ouvi-lo dizer que a investigação científica de qualidade é uma oportunidade que cumpre uma necessidade Professor. Acrescento que é também um dever que urge cumprir. E, já que comecei por aqui, consinta que constate igualmente que esta modalidade, à mesa de uma cervejaria da Avenida da Boavista com uma francesinha pronta a saborear, de debate científico é um verdadeiro luxo. Simplicidade enquanto marca de qualidade.

Liberto-me dos cobertores de socas, da bata impermeável, do primeiro par de luvas, da touca, dos óculos, da máscara, do segundo par de luvas, e, posteriormente, do pijama cirúrgico (Será que se sonha sem estar de pijama? Talvez já tenha arvorado esta questão…alguém caracterizou extensamente o neuro-tropismo do vírus?). Tomo um banho rápido de água quente, daqueles que detergem partículas virais e não escoam preocupações (existirão estirpes distintas com tropismos igualmente dispares?…). Visto um novo pijama cirúrgico, talho o cabelo a golpes de pente e encaminho-me para a sala de trabalho no lado limpo da fronteira que divide o serviço por estes dias. Paira no ar essência de café quente acabado de fazer (felizmente não tenho anosmia…). Recolho a minha chávena e aproximo-me da janela. Saboreio o café amargo e intenso (ao que parece também não tenho ageusia…). Lá fora brilha o sol, e sopra uma brisa leve a moderada (segundo se adivinha pelo drapejar das bandeiras). A luminescência acobreada espraia-se pela fachada do edifício Egas Moniz produzindo um notável jogo de tons meliáceos. Ao fundo espreitam os traços ondulantes do edifício Reynaldo dos Santos. Ali efervesce a mais crítica de todas as massas, aquela que, obedecendo à definição pura do termo, promove uma reacção em cadeia de produção de ciência de ponta. A chama perpétua do Instituto de Medicina Molecular é incessantemente alimentada pela curiosidade intelectual, encapsulando o seu lema – “Procuramos questões” – a importância desse mesmo combustível.

Criar enquanto se descobre. O acto de descobrir pressupõe tornar visível o que era outrora invisível aos nossos olhos, destapar o que anteriormente estava coberto pelo véu da ignorância, desvendar o que previamente não se encontrava acessível ao nosso conhecimento. O acto de criar comporta esboçar, moldar e soprar vida a algo que preliminarmente não constava do nosso cosmos existencial. Processos díspares, porém, frequentemente complementares e concomitantes. A criatividade enriquece e tonifica o processo de descoberta de algo. Há, não raras vezes, um processo criativo subjazendo e sustentando o processo da descoberta. É também por isto que fazer ciência é criar arte. Dentro da casa de cultura que é o IMM corta-se e cose-se DNA, compõem-se pautas de código genéticos, esculpem-se proteínas, e pintam-se células. No interior dos salões desse palácio do conhecimento movem-se, manobrando caixas de Petri como godets e pipetas como pincéis, artistas plásticos, escritores e músicos que fazem arte produzindo ciência. Esta forma de poiesis é constante construção colectiva, enquanto processo que fermenta a partir de uma progressiva e constante adição de contributos de muitos artistas.

O IMM efervesce, as línguas de fogo da sua chama perpétua animam-se, e os artistas plásticos, escritores e músicos aceleram o seu processo criativo. Está já pronto e validado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge um kit desenvolvido pela equipa da Professora Doutora Maria Mota para diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2. Argutamente adapta-se o processo à realidade nacional e ultrapassa-se a etapa crítica, a da falta de reagentes para o processo de extracção e amplificação de RNA, identificando e recrutando uma empresa portuguesa capaz de os produzir em larga escala. O IMM tem neste momento capacidade e autonomia para iniciar produção de testes de diagnóstico, aspecto de crucial importância no presente contexto. Mas, mais do que isso, no IMM pensa-se sempre no passo seguinte e já se elabora um método para tornar mais rápido este mesmo teste, permitindo aumentar a capacidade de produção e difusão do mesmo por todo o país, e esquissam-se planos para a realização de um outro tipo de testes, que serão elemento chave para a compreensão dos mecanismos da doença, que permitam avaliar o estado de imunidade da população. Há colaboração estreita com as equipas dedicadas ao tratamento de doentes com diagnóstico já confirmado que se encontram internados aqui no edifício do Hospital. O IMM funciona, neste momento, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Existem, porque a Medicina é uma ciência de vasos comunicantes, vias permanentemente abertas de comunicação e de partilha de dados com outras instituições como a Fundação Champalimaud, o Instituto Gulbenkian de Ciência, o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier, e o Centro de Estudos de Doenças Crónicas FCM Nova.  Nessa casa de cultura circulam, entre microscópios, caixas de Petri, pipetas e computadores, artistas que também arriscam a sua vida e a dos seus manobrando amostras biológicas. Há chamas que são e serão sempre perpétuas.

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Aproximo o copo de plástico da boca. O aroma do café mantém-se intenso. O líquido continua quente e saboroso. Revejo essa maravilhosa conversa, entre as garfadas de uma francesinha numa cervejaria na Avenida da Boavista, com o Professor Doutor Luís Costa. E concordo mais do que nunca, à distância de vários meses: a curiosidade intelectual é o maior tesouro de que dispomos e a investigação científica é definitivamente uma oportunidade que cumpre uma necessidade Professor.

Chamam-me do outro lado da sala. Já temos resultados das gasimetrias que colhi no lado menos limpo da fronteira que divide o serviço por estes dias. Vamos tomar decisões, elaborar terapêuticas, tratar gente de carne e osso que precisa de nós. De máscara e estetoscópio, de microscópio e pipeta, seguimos em frente por Portugal, por seres humanos.