No Sábado passado fui ver o artista que na última década mais me inspira. É um cantor chamado John Maus. Cantor talvez não seja a melhor descrição porque o que o John Maus também quer é uma espécie de anti-canto. Ele é tanto artista como anti-artista, é um fã da música popular do Pós-Segunda Guerra, ávido para explicar que ela não é tão importante assim—no fundo, é uma pessoa fascinante.

Escrevi aqui há uns anos um texto em que defendia que “as pessoas realmente dotadas são aquelas que, ao manifestar o seu dom, não o conseguem fazer sem que ele se mostre também como uma doença (…) Conquista-me mais o que nem a obra chega, conquista-me a tentativa falhada ou, mesmo que atingida, estragada por algo que, no meio do processo, a desfigurou noutra coisa qualquer”. Há um modo mais simples de defender isto que passa por citar G. K. Chesterton: “O bom músico adora ser músico, o músico mau adora a música”—passo a vida a fazê-lo.

A música do John Maus junta ingredientes que parecem não casar. Há teclados dos anos 80 que não querem ser retro, há órgãos litúrgicos que não querem ser barrocos, há frases bombásticas que não querem ser apenas slogans, há curvas sonoras que não querem despistar, há actuações que não querem somente entreter. O Maus é um artista em choque com as expectativas estéticas e económicas acerca da arte. Também por isso, quando toca ao vivo limita-se a passar as suas canções como playback e a gritar em cima delas. Sim, o seu show é o não-show.

A reacção do público não deixa de ser igualmente paradoxal: junta-se ao transe do artista não-artista. É um espectáculo de música popular fazendo pouco dos espectáculos de música popular. O corpo do John Maus no palco é a única diferença de ouvir o John Maus em casa—ele não está interessado em tocar ou cantar de um jeito que fizesse da performance ao vivo uma defesa da pertinência da sua presença física. Nesse sentido, o corpo dele funciona como intensificação e crítica da própria música que faz. Sei que estou a soar pós-moderno a escrever desta maneira mas não encontro outra maneira de o fazer.

A melhor categoria para explicar o John Maus é religiosa. A música do John Maus aponta a necessidade da adoração e a necessidade simultânea de prevenir nessa adoração a idolatria. John Maus ilustra o primeiro e o segundo mandamento de acordo com a ordem judaica (e protestante): “Não terás outros deuses” e “não farás para ti imagens de semelhança” (e isto tem um graça maior porque ele se tornou católico nos últimos anos). John Maus é um cantor que nos quer livrar do poder inadequado dos cantores. Ele quer que curtamos música ao mesmo tempo que detectamos os truques mais baixos dela. Até os refrões que parecem mais óbvios podem não ser tão óbvios assim.

Uma das melhores componentes dos seus concertos é falar zero. Além do que canta, nem uma palavrinha foi dada ao público. Nem um “boa noite” nem um “obrigado”. Ele não está no palco para tretas. Uma canção segue outra sem esconder o dispositivo técnico mais básico que é baixar-se para fazer os playbacks sucederem-se. No entanto, no final do concerto ele vem para a banca do merchandising falar com quem quiser. Como já sabia que o fazia, eu, o meu mais novo e o meu amigo Manuel Fúria fomos ao encontro dele. Tivemos de esperar um bom bocado porque nós portugueses somos uns lorpas a organizar cenas destas e cada pessoa levava o tempo que queria. O Maus não apressava ninguém. Impressionantes, a sua elegância e generosidade.

Quando cheguei ao pé dele disse-lhe “John, you’re the greatest christian artist alive” e expliquei-lhe que era pastor baptista e o meu amigo Manuel católico. Ele ficou surpreendido mas respondeu enfaticamente “Christ is resurrected!” Tirámos a fotografia da praxe, sacámos os autógrafos nos discos e trocámos abraços. Nos breves minutos de conversa falámos de fé e confirmei que, se a minha na arte não é grande, diante de um homem assim aquela que tenho na adoração é total. Já esperava muito do concerto do John Maus mas foi ainda melhor. They call us the believers.