Fátima

Milagres, Ciência e Fé

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O milagre não se contrapõe à ciência, nem à razão, antes a reconhece e confirma. A fé não é uma crença irracional, mas um conhecimento razoável.

Ante um facto extraordinário, cabem duas possíveis explicações: a da fé, que remete para a omnipotência divina; e a da razão, que tenta compreender cientificamente o fenómeno. O reconhecimento do carácter milagroso de um facto não impede contudo a sua explicação científica, como aconteceu com o milagre do sol, cujo centenário ocorreu no passado dia 13 de Outubro. O milagre, embora pressuponha uma intervenção extraordinária de Deus, não se contrapõe à ciência, nem à razão, antes as reconhece e confirma. A fé não é uma crença irracional, mas um conhecimento razoável, mesmo que o seu fundamento último não seja a evidência, mas a autoridade de Deus que se revela.

Ainda há quem entenda, como os positivistas, que Deus – que, nesse caso mais não seria, como pretende a maçonaria, do que o grande arquitecto do mundo – não intervém e, por isso, rejeitam tanto a revelação sobrenatural como os milagres. Mas também há crentes que negam que os milagres tenham explicação racional. Ora o milagre, embora exija uma intervenção divina excepcional, também admite uma explicação científica.

Nem tudo o que é de fé pode ser, contudo, demonstrado racionalmente. A teologia católica reconhece que há realidades que excedem a compreensão humana como, por exemplo, a própria entidade divina. A razão humana não logra compreender a Deus, embora dele tenha um conhecimento que, ainda que imperfeito, é verdadeiro. O mistério de Deus, uno e trino, transcende a razão, mas não é absurdo, nem irracional. A fé nunca contradiz ou nega a razão, embora por vezes a exceda, como acontece nos mistérios, nomeadamente o da Santíssima Trindade.

O que é logicamente contraditório, nem sequer a Deus é possível: não pode existir, em caso algum, um círculo quadrado ou, por absurda hipótese, um morto-vivo. Quer isto dizer que Deus não é todo-poderoso? De modo nenhum, apenas que a sua omnipotência o não pode contradizer, nem opor-se às leis que por, sua determinação, regem o universo. Outro exemplo: Deus é libérrimo, mas não pode não existir, nem prescindir de nenhum dos atributos que convêm necessariamente à sua essência.

O absurdo lógico, em termos epistemológicos, é o que o cientista Padre Stanley Jaki designa por ‘impossibilidade evidente’. A explicação científica de um milagre não pode nunca supor nenhuma ‘impossibilidade evidente’ porque, a contradição inerente a essa impossibilidade, provaria racionalmente a sua inexistência. Portanto, só pode haver um milagre físico onde também há, para a ciência, essa possibilidade.

Para além do absurdo lógico que, por ser contraditório, não é possível, também são impossíveis os absurdos naturais: fenómenos que, sendo possíveis do ponto de vista racional, contradizem a natureza, na medida em que não são congruentes com as leis por que se rege o universo, tal como foi criado por Deus e é conhecido pela ciência. Não seria impossível, em termos lógicos, uma árvore falante ou uma pedra andante; mas na ordem natural existente, tal como foi criada por Deus, não faz sentido uma árvore falante ou uma pedra andante, porque a fala e a mobilidade não são propriedades dos seres vegetais ou minerais, respectivamente.

Quando acontece um milagre, Deus não só não faz nada que seja logicamente contraditório – como uma recta curva – como também não contradiz as leis naturais. Se Deus desse visão a uma árvore, ou a uma pedra, um tal milagre seria antinatural, mas dar a vista a um cego é algo em si mesmo natural, porque a visão corresponde naturalmente aos seres humanos. Neste sentido, também é natural que um morto ressuscite, porque a vida é própria da condição humana. Mas, fazer que uma pedra veja, por hipótese, seria antinatural, e o que não é natural também não é racional, nem científico, porque a ciência é a razão da natureza.

Quando Deus faz um milagre, actua extraordinariamente, mas sem alterar a natureza dos entes sobre os quais intervém: a água pode converter-se em vinho, porque ambos são líquidos; um santo pode ter estigmas, porque o corpo humano é passível de ter chagas; o Criador pode multiplicar um pão em muitos outros, porque é uma questão de quantidade; Deus tem poder para suscitar um cardume no mar, que é onde os peixes naturalmente vivem; um morto pode ressuscitar, porque a vida é própria do ser humano; Jesus pôde fazer Pedro andar sobre as águas, porque o corpo de um ser humano pode, em certas circunstâncias, não se submergir, etc.

Quer isto dizer que, nestes casos e outros semelhantes, não houve milagres?! Claro que os houve e muito grandes até, não tanto por aquilo que aconteceu como pelo modo como aconteceu. Com efeito, esses factos só são explicáveis por uma extraordinária intervenção divina.

Aliás, o reconhecimento do carácter milagroso de um determinado fenómeno não é da competência teológica, mas científica. Ou seja, é à ciência que incumbe afirmar que aquele facto não tem, nem pode ter, uma explicação natural. Não apenas que não se sabe, agora, como se operou uma certa cura, mas que em caso algum a mesma poderá ser atribuída a uma causa natural, pelo que apenas resta, por exclusão de partes, a hipótese de uma intervenção sobrenatural.

Imagine-se, por exemplo, que alguém tem uma grande dor de cabeça, reza a Santo António e a dor desaparece. Foi milagre? Pode ter sido mas, como não se pode provar que a dor não teria desaparecido, mesmo que não se tivesse invocado o santo, é óbvio que um tal facto não constitui, nem para a ciência nem para a Igreja, um milagre. Se o mal já não for uma enxaqueca, mas um tumor maligno espalhado por todo o corpo e, depois de rezar ao santo, o tumor desaparecer instantaneamente, é evidente que houve milagre. É certo que há tumores, até malignos, de que há cura natural ou médica, mas se a mesma for total e instantânea, é evidente que se deveu a uma causa extraordinária, pois nenhum processo natural pode produzir esse efeito em tão pouco tempo.

Nem todos têm o mesmo apreço que a Igreja católica tem pela ciência. Com efeito, quando consta alguma cura eventualmente milagrosa, a autoridade eclesial considera-se incompetente para ajuizar cientificamente o facto e, por isso, são os cientistas, por vezes não-crentes e até agnósticos, que se pronunciam sobre o caso, em função das provas científicas existentes. Só se entenderem que o fenómeno não admite, nem pode admitir, nenhuma explicação natural é que a Igreja reconhece o milagre. Neste sentido, o milagre é uma constatação científica, que a Igreja se limita a registar.

A fé cristã não é cega. Não só não se opõe à ciência como a pressupõe e potencia: só assim se explica que tenha sido precisamente a Igreja católica a fundar as universidades, bem como inúmeras escolas e centros de estudo e de investigação científica. O pior inimigo da fé cristã não é, nem nunca foi, a sabedoria dos cientistas, mas a arrogância dos ignorantes. Era certamente a estes que Dostoiévski se referia quando dizia que algumas pessoas têm tanta ‘fé’ que até são ateus!

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