Javier Milei chegou ao poder com a promessa de destruir o Estado parasitário. No artigo anterior analisámos os resultados económicos iniciais: défice zero, inflação a cair, peso a estabilizar. Desta vez, olhamos para outro lado da sua revolução: a frente cultural. E nem tudo bate certo com o liberalismo que diz defender.
Comecemos pelas boas notícias para quem acredita na liberdade individual.
Desligar a cultura da torneira estatal é um gesto liberal
Logo nos primeiros meses, Milei eliminou os subsídios discricionários a produtores culturais e revogou a quota de exibição de filmes nacionais nas salas de cinema. O critério deixou de ser ideológico ou político. Passou a ser o mercado. Quem quiser criar, que convença o público. Quem quiser financiamento, que o mereça, não que o receba por alinhamento.
A cultura não precisa de tutores. Precisa de audiência
Também no plano institucional, Milei avançou com a fusão de vários ministérios e fundações culturais sob o novo “Ministério do Capital Humano”. A crítica é previsível: cortes. Mas a lógica foi coerente com o princípio liberal, reduzir a máquina estatal e recentrar o Estado naquilo que só ele deve fazer.
Mas a coerência pára aqui.
Milei apresenta-se como campeão da liberdade de expressão — mas não hesita em encostar contra a parede quem o desafia. Denuncia o “marxismo cultural” e jura combater o cancelamento. Mas ao mesmo tempo corta microfones, bloqueia jornalistas e alimenta linchamentos digitais vindos da sua entourage.
Quem só defende liberdade para os seus, não defende liberdade nenhuma
Um exemplo ilustrativo? O encerramento do INADI (Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo). O governo justificou a medida com base em “ineficiência” e “militância ideológica”. Mas a realidade mostra que o INADI operava em mais de 100 cidades e contava com centenas de funcionários que prestavam apoio jurídico gratuito a vítimas de discriminação e publicavam estudos nacionais sobre preconceito, como o Mapa da Discriminação. O seu fecho rompeu com recomendações da ONU, que apelava ao reforço, não ao desmantelamento. Eliminou-se um organismo com impacto real, mas com a “culpa” de defender minorias.
Cortar o desperdício é virtude. Cortar a proteção dos vulneráveis é omissão
No plano simbólico, a sua cruzada moral torna-se ainda mais clara. A extinção do Ministério das Mulheres foi acompanhada de uma retórica agressiva contra qualquer política de género, tudo passa a ser visto como “doutrinação” ou “negócio político”. Em nome da neutralidade do Estado, eliminam-se apoios a vítimas de violência doméstica e programas de educação sexual.
Não se trata de avaliar caso a caso. Trata-se de apagar tudo.
O liberal pode, e deve, questionar políticas públicas. Mas o liberal que se preza não tolera que o Estado abandone a sua função mínima: proteger os vulneráveis.
Ser liberal não é combater o Estado. É escolher bem onde ele deve existir
E no plano internacional, a deriva continua. A Argentina foi o único país do G20 a recusar assinar uma declaração de apoio ao papel das mulheres no desenvolvimento. Talvez se evite diplomacia simbólica, dirão. Mas o gesto isola o país e envia um sinal sinistro: que a dignidade humana é secundária perante a coerência ideológica.
Liberdade sem dignidade é só arbitrariedade
Aos olhos do novo governo, o INADI era apenas mais um bicho-papão burocrático, o alvo perfeito para quem acha que Estado mínimo é sinónimo de Estado invisível.
Cortar pode dar votos fáceis. Mas apagar instituições que defendem vítimas de discriminação não é libertar o cidadão — é deixá-lo sozinho.
A batalha cultural de Milei não é só retórica. É estratégica. Ao desmantelar organismos de direitos humanos, educação inclusiva e programas sociais, Milei não apenas corta despesas, corta resistências. É uma purga ideológica embalada em linguagem de austeridade.
O projeto de Milei mistura cortes valentes com cruzadas morais. Nas finanças, é um libertário impiedoso. Na cultura, torna-se um vigilante de costumes. Quem o aplaude por reduzir o Estado, deve exigir que a mesma tesoura corte também onde se legisla o comportamento.
Um verdadeiro liberal não impõe a moral — protege a liberdade.