A cultura contemporânea demorou demasiado tempo a entender as mudanças radicais que as novas tecnologias viriam a provocar. A Internet, incontornável a partir da década de 80 do século passado, não só não foi reconhecida pelos intelectuais da época, incluindo nestes os principais agentes culturais, como desde então tem sido ativamente desprezada e combatida. Ainda hoje, a maioria dos criadores contemporâneos tem um entendimento muito limitado do potencial cultural da Net.

As novas ciências de base digital, que emergiram em meados do século passado, revolucionaram o conhecimento, abriram novas e enormes avenidas de experimentação e invenção. Dado o extraordinário potencial do novo reino do digital e do artificial, da biologia ao universo, passando pelos fundamentos da vida, praticamente tudo se alterou no campo da explicação e da exploração das coisas.

A chamada cultura contemporânea considerou que nada disto lhe interessava. Tornou-se tecnofóbica, alimentou a ideia perniciosa e arrogante de que cabe à cultura defender um pretenso humanismo contra o domínio da ciência e da técnica.

Ao resignar-se a uma forma de resistência e conservadorismo, a cultura contemporânea tem contribuído muito pouco para o desenvolvimento tecnológico. Comete um erro enorme. Desde logo porque se vai tornando desinteressante para o público em geral e sobretudo para as novas gerações. É cada vez mais difícil assistir a uma peça de teatro, um filme ou ver uma exposição onde não existe qualquer referência à nossa cultura, ou seja, à cultura deste século 21. Em suma: a cultura contemporânea deixou de ser contemporânea.

Por outro lado, as novas tecnologias precisam de ideias frescas, imaginação, inovação. São um produto combinatório de ciência, tecnologia e arte. Por falta de comparência da chamada cultura artística contemporânea, a componente arte tem-se praticamente limitado ao design que, entretanto, deixou de ser uma disciplina menor das artes e é agora dominante. O design, enquanto combinação de arte e técnica, tornou-se na arte de vanguarda do nosso tempo. Não é mais o simples desenho de uma cadeira, mas criação de experiências, robótica, programação, inteligência artificial. Um algoritmo é, em muitos casos, uma verdadeira obra de arte.

É neste contexto geral, descrito na brevidade de um artigo, que vejo a necessidade de uma mudança radical no papel do Ministério da Cultura. Para além das questões da salvaguarda do património herdado, o Ministério deve ter por missão prioritária a promoção da aproximação entre artes, ciências e tecnologias, quer no domínio da experimentação livre, quer integrada no meio empresarial tecnológico. Mais do que distribuir subsídios, é urgente criar programas de qualificação tecnológica dos artistas, de todas as artes. A sustentabilidade económica de um país depende hoje da capacidade de gerar inovação tecnológica. Mas não só na economia. Na cultura também, pois é através dela que nos afirmamos como comunidade.

O passado está feito e, em muitos casos, orgulha-nos. O futuro está por fazer. Ora, a generalidade dos agentes culturais não está preparada para dar um contributo significativo. É aí que o Estado deve intervir.

Artista.