Dizem-nos os clássicos que a política é a arte mais alta, porque ordena as restantes. É ela que traça o horizonte da cidade, que administra os recursos, que garante a justiça entre iguais e desiguais. Porém, se olharmos com serenidade para as eleições autárquicas do nosso tempo, dificilmente reconheceremos nelas a elevação da arte política. Aquilo a que assistimos aproxima-se mais de um concurso de simpatias, uma espécie de feira de popularidades, onde o critério de escolha não é o mérito da governação, mas a afeição pessoal, a proximidade familiar ou ainda a simples repulsa por este ou aquele rosto.
O voto, que deveria ser o gesto supremo de prudência cívica, converte-se em reflexo imediato: “É meu amigo, logo merece o meu apoio”; “Não gosto do outro, portanto voto neste.” Não se examina o programa, não se ponderam as medidas, não se julga a experiência: apenas se confirma a teia de relações sociais, como se a governação de uma freguesia ou autarquia fosse uma extensão das conversas de café ou das rivalidades de família.
Platão advertia, na República, contra o risco de entregar o leme da cidade àqueles que apenas agradam às massas, mas não possuem ciência nem prudência. Comparava o povo a marinheiros que, desconhecendo a arte da navegação, disputam entre si o comando do navio e acabam por escolher não o piloto mais hábil, mas o mais astuto em conquistar simpatias. Que é a nossa política local senão esse mesmo paradoxo? Entregamos a barca do município não a quem sabe ler as estrelas e compreender os ventos, mas a quem se mostra mais hábil em sorrir, em cumprimentar, em parecer “um dos nossos”.
E, no entanto, se há esfera que exige competência, é precisamente a autárquica. Governar uma cidade ou uma freguesia não é mera gestão de amizades: é saber equilibrar orçamentos limitados, planear infraestruturas, proteger o património, promover o desenvolvimento sustentável. Não basta ser simpático para tapar buracos nas estradas, gerir redes de saneamento, atrair investimento ou resolver conflitos de vizinhança. A simpatia pode ganhar votos, mas não constrói pontes, não resolve lixeiras, não salva escolas.
Mais revelador ainda é que, em muitos concelhos, o eleitorado não vote a favor de alguém, mas apenas contra outro. O sufrágio converte-se, assim, em arma de vingança pessoal ou tribal: escolhe-se não tanto o governante preferido, mas o rival menos odiado. É como se a assembleia popular fosse tribunal de inimizades privadas e não exercício de deliberação sobre o bem comum. E no fim, a cidade paga o preço desta infantilização política: líderes escolhidos como se fossem vencedores de um concurso de “Miss Simpatia” e não como servidores capazes da polis.
Pensemos na aldeia, esse microcosmo da nossa democracia. Quem ali se candidata raramente o faz sustentado em programas complexos: fá-lo sustentado na rede de parentescos, de favores passados, de presenças em festas e romarias. A urna transforma-se em prolongamento da mesa da taberna ou da procissão anual. Não se vota em cidadãos enquanto magistrados da comunidade: vota-se em amigos, vizinhos, compadres ou, na melhor das hipóteses, em quem não se odeia. A política é, assim, reduzida à dimensão doméstica e o bem comum sacrificado ao conforto do círculo próximo.
Cícero, ao refletir sobre a República, dizia que a cidade só subsiste quando os cidadãos sabem distinguir entre a coisa pública (res publica) e os interesses particulares. Nas autárquicas, a nossa cegueira é justamente essa: confundimos a amizade com a competência, a antipatia com a ilegitimidade. Resultado: confundimos o público com o privado.
É claro que nenhum governante deve ser escolhido sem uma certa empatia. A política exige proximidade, exige humanidade. Mas quando essa proximidade substitui o exame rigoroso da capacidade, transforma-se em vício e não em virtude. A maturidade democrática consiste precisamente nisto: na coragem de escolher, não o que nos é mais simpático, mas o que é mais útil e justo para a comunidade.
Em última análise, a democracia local só se cumprirá quando o voto for um ato de consciência e não de amizade, um gesto de razão e não de ressentimento. Até lá, continuaremos a assistir ao mesmo teatro: candidatos que desfilam como manequins de popularidade, eleitores que votam como fãs num concurso televisivo, e comunidades que se espantam, mais tarde, com a pobreza dos resultados. Mas como esperar outro fruto se a semente lançada na urna foi apenas simpatia?
E talvez seja este o ensinamento maior dos clássicos: a cidade só floresce quando se confia o leme ao piloto mais hábil, ainda que ele não seja o mais querido. Porque, em política como no mar, a popularidade não conduz o barco a bom porto.