Morrer não é opcional. Mas o lugar onde morremos, muitas vezes, ainda podia ser uma escolha. Infelizmente, para muitas pessoas, morrer hoje significa um corredor de hospital. Uma maca encostada a um canto da urgência, numa tentativa quase inútil de privacidade. Ou, para quem tem sorte, uma cama de enfermaria. Morrer, hoje, significa quase sempre um hospital. Mesmo quando nunca foi essa a vontade da pessoa.

Quem trabalha num serviço de urgência conhece esta realidade demasiado bem. Cada vez menos pessoas conseguem morrer em casa, rodeadas pela família e pelo conforto do que lhes é familiar. E, no entanto, sabemos que esse continua a ser o desejo de muitas delas. É um paradigma que precisa de mudar. Porque os hospitais são, antes de mais, hospitais de agudos. Foram pensados para tratar doença reversível, urgente, potencialmente curável. Não para serem o lugar onde se morre por ausência de alternativa.

Cada vez mais chegam aos serviços de urgência doentes em fim de vida. Doentes terminais, frágeis, exaustos, transportados em ambulâncias, por vezes por meios diferenciados, incluindo a própria VMER. Doentes que, na maior parte dos casos, nunca deveriam ter sido retirados do seu conforto nos últimos momentos de vida. Chegam desidratados, confusos, em sofrimento. E muitas vezes, depois de horas de exames, observação e tratamentos, concluímos aquilo que já era verdade antes de a ambulância partir: estão a morrer.

Mas faltam respostas fora do hospital. Faltam equipas de cuidados paliativos. Falta apoio domiciliário. Faltam cuidadores. Falta integração entre o hospital e a comunidade. Falta quem saiba aliviar o sofrimento e acompanhar os últimos dias sem transformar a morte numa emergência. E, sobretudo, falta-nos, enquanto sociedade, aceitar que nem tudo o que acontece a um corpo precisa de ser combatido como se fosse uma falha técnica.

Às vezes, o que falta não é mais medicina hospitalar. É presença. É controlo da dor. É uma cama conhecida. É alguém que diga à família: “Não estão sozinhos. Isto é esperado. E pode ser cuidado aqui.”

Porque há mortes que não precisam de monitores, nem de análises, nem de corredores iluminados a néon. Precisam apenas de cuidado. E cuidado, no fim da vida, nem sempre significa fazer mais. Às vezes significa, finalmente, deixar ficar.

Porque a dignidade de uma vida mede-se de muitas formas. Uma delas é permitir que, quando já não há cura, também não haja sofrimento desnecessário.

E que ninguém tenha de morrer no sítio errado.