Posso empregar a expressão “no meu tempo”? Penso que sim, embora o meu tempo tenha sido, no passado, mas seja este também, no presente. Ou melhor, não estou fora do meu tempo. Porque sou de agora.

Vem isto a propósito e para poder dizer que consigo fazer comparações entre tempos diferentes sem ter grandes dúvidas sobre o quão fundamentadas e transversais são as constatações que faço e, aqui mais especulativamente, quais os impactos que elas poderão ter em termos futuros.

O ponto são notas.

Notas de exames, notas de testes, de trabalhos, finais de cadeiras, finais de licenciatura, finais de mestrado. O que seja, são notas.

No outro tempo os meus pais sabiam pouco ou nada sobre os meus resultados em notas.

No outro tempo os meus pais perguntavam-me tendencialmente zero sobre notas ou apareciam irregularmente – e escassamente –  nas reuniões de pais do liceu.

No outro tempo os meus pais não seguiam as minhas cadeiras e mal sabiam o ano em que andava ou as notas que tinha.

No liceu, ao chegar uma carta de notas a casa perguntavam-me, pontualmente, pela nota A ou B mas por defeito. Isto é, se estava abaixo de um determinado patamar mínimo (que era para eles o máximo) perguntavam-me o que poderia ter acontecido logo seguido de um “isto vai ser melhorado e da próxima vez queremos isto lá em cima”. E diziam sempre: “tens de trabalhar e isso não é senão a tua obrigação”.

Na faculdade não sabiam as cadeiras que tinha feito ou ia fazer e quando tinha ou deixava de ter exames e se precisava ou não de estudar. E no meu percurso académico, se estiveram presentes em alguns marcos, na maioria das ocasiões não estiveram. Não por desinteresse. Mas porque se a minha opção profissional era uma então só havia espaço para que fosse minimamente bom nessa mesma escolha. Não me diziam que era o máximo e híper-inteligente quando num trimestre limpava tudo a cincos (liceu). Não me diziam que era um pequenino deus quando uma ou outra vez lhes dizia ter tido um 20. Nada disso. “Não fazes mais que a tua obrigação”. Ou, se tinha tido um 16, “onde estão os outros 4 valores?”

E os meus pais não eram desconhecedores dos meandros do ensino e do ensino superior e nem, tão pouco, andavam arredados de estudos e de percursos profissionais. O meu pai era (ainda é) engenheiro e a minha mãe sempre foi, vida toda, professora.

Os tempos, porém, mudaram e a forma como se vêm as coisas à data de hoje idem. Se antes era bom cumprir e cumprir era ter boas notas hoje as coisas reinventaram-se em vários sentidos.

No outro tempo havia desaires. Havia más notas. Como havia boas notas. Estudava-se, conseguia-se, não se conseguia. Geria-se o resultado em conformidade. E geria-se esse mesmo resultado de nós para connosco sem que ninguém nos desse os parabéns ou mesmo nos dissesse “és grande”, “es bom”, “és o máximo”. Nada disso: apenas um “não fazes mais que a tua obrigação”.

No tempo de hoje há um inflacionamento geral de notas.

No tempo de hoje os pais “perseguem” os filhos e fazem sobre eles um quase bullying para que sejam sobre-dotados.

No tempo de hoje os pais todos os dias querem um resultado, uma nota, um qualquer achievement que reforce e caucione o quanto o seu filho é “o maior”.

Nos tempos de hoje uma boa nota, que não é um 15 ou 16 mas, antes, um 19 ou um 20, permite imediatamente aos pais e à sociedade em geral manifestarem-se a favor da grande verdade universal: “temos um filho herói”. “És o maior”. “És grande”. “És brilhante”. “És inteligentíssimo”. Sei lá que mais.

Nunca houve tantos 18’s, 19’s e 20’s na comparação com qualquer outro tempo para trás.

Nos tempos de hoje os estudantes choram quando têm um 16 e então se for na tese de mestrado acho que deixam de viver uns tempos.

Nos tempos de hoje há espaço para que se queiram negociar notas.

Nos tempos de hoje aquilo que é uma normalidade, usar uma escala de 0 a 20, tornou-se numa anormalidade, usar uma escala de 14 (com má vontade) a 20. Se antes as médias podiam, se positivas, ser de 11 ou 12 sem que viesse mal ao mundo por isso, hoje, as médias são de 16, 17, 18 e mais. Nos mestrados, então, isto é um clássico transversal.

Conheço não um mas vários, muitos, muitos estudantes mesmo, com médias impensáveis noutros tempos. Impensáveis para a generalidade das pessoas e que os tornam a todos génios.

Nos tempos de hoje fazem-se heróis de normalidades o que, noutros tempos, seria apenas um “não é mais que a tua obrigação”. Mesmo com notas boas ou muitíssimo boas.

Nos tempos de hoje elevaram-se de tal forma as fasquias que já temos dificuldade em discriminar os bons dos menos bons, os que se empenharam e estudaram dos que não fizeram nada. Dos que são de facto consistentemente bons dos que são heróis de pés de barro. Confundiu-se tudo. Confunde-se tudo.

Transformámos uma escala de avaliação numa semi-escala. Criámos imensas expetativas a uma enorme população. Transformámos pessoas normais em génios. E estamos a criar frustrados em série.

O mercado de trabalho não está cheio de génios. E mal seria.

O mercado de trabalho não avalia como brilhantes todos os seus trabalhadores. E mal seria.

O mercado de trabalho não cria heróis de pés de barro de forma consistente e transversal. E mal seria.

O mercado de trabalho é, apesar de tudo, mais normal que a inflação de notas e avaliações e deuses que vão sendo criados pelas universidades. E ainda bem.

E, neste ponto, as universidades não estão a fazer um grande trabalho.

E não é uma ou duas universidades. São todas sem exceção. E quando se passa a mestrados é absolutamente confrangedor analisar as notas de final de mestrado e as notas das teses. Nas teses, então, perdeu-se qualquer noção de escala e de senso.

Estamos, pois, a criar pessoas incapazes de gerir insucessos. Pessoas com elevadíssimas expetativas. Pessoas auto-centradas e endeusadas. Que se consideram verdadeiros heróis face a uma geração, a minha, e a gerações anteriores à minha, que não tinha estas notas e onde se usavam escalas de 0 a 20. Estamos a alimentar uma espécie de anormalidade com a qual todos compactuam: docentes, universidades e mesmo mercado de trabalho. E os estudantes com espaço para a reivindicação que, depois, transportam para as empresas.

Estamos, com isto, a prejudicar o recrutamento sério. Estamos a prejudicar pessoas. Estamos a dizer-lhes que não têm falhas e são perfeitos.

Depois, bom, depois as empresas, o mercado de trabalho e a vida (as vidas em geral) que os aturem.

Temos heróis demais. E devíamos fazer um pacto de regime inter-universitário com regras para aplicação de notas. Para cumprir. E para normalizar e fazer o nosso papel. Se não forem todos a fazer criam-se génios onde não há e pessoas, mais tarde, difíceis de gerir. Por isso, teremos de ser todos em todas as universidades – sem exceção –  a fazê-lo.

Era, isto sim, um grande bem que se fazia às gerações que se estão agora a ser forjadas e que muito ajudaria a tão grande dificuldade em recrutar, reter e explicar que o mundo não é apenas cor de rosa. Que as ilusões acontecem e que será bom termos pés assentes na terra.

Posto isto e feita a nota, e com as minhas notas dadas (não é mais que a minha obrigação), vou de férias. Boas férias a quem as tem.

Professor Catedrático –  ISCTE – IUL. Presidente Comissão Executiva INDEG-ISCTE Executive Education