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Um dos princípios mais interessantes – enfim! – dos últimos anos é esta procura desenfreada por apenas fazer o que se gosta.

A questão que deixo nada tem a ver com o princípio, que admito interessante, mas totalmente teórico e romântico. Alguém apenas só faz aquilo que gosta? Nem um jogar de futebol de alto nível, que adore jogar à bola desde criança, gosta de tudo o que faz: gosta, claro, de jogar à bola. Mas gosta de ser disciplinado, de levantar ferro, de passar horas no ginásio, de ter uma alimentação sem grandes pisadelas em linhas vermelhas, de ir para a cama com as galinhas? Claro que não. Há aqui um sacrifício enorme em prol de um objetivo maior.

Hoje e nos últimos anos, oiço muito esta coisa do “fazer só o que gosto”, do “ir à procura de algo que me realize por completo”, de me despedir e “deixar tudo para me ver realizado no meu trabalho”. Confesso que acho isto um absoluto engodo. E lá anda, de novo, a palavrinha mágica, e traiçoeira, da moda: a troco de quê? Pois bem, de felicidade!

Primeiro porque ninguém, por mais que goste do que faz, só faz o que gosta. São coisas diferentes. Para fazer o que se gosta, tem mesmo de se fazer um sem número de outras coisas que não se gosta. Ou seja, para me permitir gostar de estar numa aula – e dar uma aula é talvez a minha maior paixão – tenho de me esforçar por fazer um sem número de coisas que me são absolutamente contrárias, diria mesmo hostis, em termos de gosto: tarefas administrativas, notas, correções, preparações através de materiais que nunca mais ganham a forma e a beleza desejados.

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Depois, porque precisamente para fazer o que se gosta tem de se escolher o que se gosta, sublimando-o, e depois ser capaz de gerir tudo o que não se gosta, minimizando o seu impacto. Dizia-me alguém: gosto imenso do que faço, mas detesto o meu chefe. Mas e há situações perfeitas? Em que se gosta do chefe e do que se faz? Claro que não. Nunca há situações perfeitas. A pergunta é: consegue sublimar o que faz e colocar entre parêntesis a relação com o seu chefe, de modo a que ela não interfira muito no seu trabalho?

Ninguém pode acreditar em situações de gosto supremo em tudo e em todos os momentos porque elas não existem. Se conseguirmos gostar muito de um determinado aspeto que fazemos, então devemos é procurar ganhar condições para fazer mais disso, assim nos deixem, e menos do resto. É esse o processo. E é esse o propósito da negociação. E não a negociação do “isto já não serve”.

Vou-me embora, significa normalmente dizer que tenho que fazer muita coisa que não gosto para pouca que gosto. E o que não gosto começa a contaminar o que gosto e isso é uma desgraça. A desgraça serve-se numa bandeja com dois problemas, entre outros.

O problema da intolerância, i.e., a incapacidade de convivência com um conjunto de tarefas que se fazem e não se gostam pelo que, às tantas, em vez de o que se gosta dominar o que não se gosta, sublimando esse gosto, passa-se a contaminar o que se gosta com tudo o que é negativo e passa-se a não gostar de nada. Este fenómeno de intolerância vai-se repetindo de trabalho em trabalho, de posição em posição.

O problema da comparação com os outros. Porque o A e o B e o C gostam do que fazem e eu não. Claro, e todos nós acreditamos piamente que todos eles adoram o que fazem e só fazem o que gostam. O que é uma mentira gigante e ajuda muito pouco. Primeiro, porque é mesmo uma mentira. Depois, porque é embrulhada numa aura de “sucesso” e de “gosto” que se torna inverosímil. Compreender esses outros e a necessidade de se “venderem” com uma aura sempre positiva tem os seus quês. Mas é preciso mesmo desconstruir isso. Vá lá, tem de se admitir, há uma dissonância entre discurso e realidade.

Acontece, adicionalmente, que nos dias que correm há um paradoxo tramado. É a mesma malta que apregoa o copo meio cheio que depois só vê coisas negativas no que faz e que, por causa do copo meio cheio, vasa o copo todo e sai à procura de outro copo. Falam ad nauseam em meio cheio, mas a prática é do mais meio vazio que há.

Daí aos estereótipos que se criam vai um passo. Banca não, porque é uma seca. Consultoria não, porque se trabalha muitas horas. Seguradoras não, porque é uma indústria que não inova. Indústria transformadora não, porque há aquela coisa das máquinas e do chão de fábrica. Ensino não, porque os tipos apregoam aquilo que não fazem. Media não, porque os únicos que ganham dinheiro são os que aparecem nos ecrãs. E por aí fora. Tão por aí fora, que se torna todo e qualquer trabalho e sector sem coisas positivas. Os bons trabalhos, de resto, são aqueles que alguém ainda não experimentou, ora bem.

As ideias preconcebidas ganharam um terreno tal no mercado de trabalho, que o tornaram refém de arquétipos patéticos. Isto tanto pode ser uma questão de ancoragem como de representatividade, mas é, seguramente, uma heurística preconcebida e resulta de interseções entre sistemas cognitivos automáticos e reflexivos do ser humano. No final, perdem todos, colaboradores e empresas. E tudo pode acabar numa estupidez tão grande como aquela que dá o título a este texto: Não gosto do que faço. O que, sem mais, tem de dar origem a uma questão mandatória sem qualquer resposta: sério!?