Jerónimo de Sousa diz que o Avante! não é um festival. E está certo. São eventos completamente diferentes. Num festival de Verão, se o festivaleiro quiser ficar inebriado, terá primeiro de adquirir a droga, tomá-la e esperar que faça efeito. Só então pode começar a alucinar. No Avante!, isso não sucede, uma vez que os comunistas já saem de casa com a percepção alterada da realidade. Não precisam de tomar nada para ver o mundo ao contrário. Com isto, os participantes ganham horas de psicadelismo, pois entram no recinto já desvairados, a verem coisas estranhas como elefantes voadores, empresas maléficas voadoras e propriedade privada malvada voadora. No Avante!, para tripar não é preciso esperar que a droga bata. No Avante!, a única coisa que bate é a Segurança. Geralmente, em homossexuais.

Que é outra diferença entre um festival de Verão e a festa dos comunistas: nos festivais, toda a gente anda à vontade, seja hetero ou homossexual. Na Festa do Avante!, uma mulher pode amar a classe operária, mas não pode amar uma operária com classe. A Segurança leva a mal. Quando o público é homossexual, o lema do Avante! deixa de ser “não há festa como esta” e passa a ser apenas “não há festa”. É a histórica homofobia comunista. Vem nos livros.

Livros, lá está, que é ainda outra diferença entre o Avante! e um festival de verão. Num festival não costuma haver livros. No Avante!, sim. Tirando, claro, aqueles que os comunistas proíbem. Como o de Luaty Beirão, “Sou eu mais livre, então”, o diário onde o activista angolano conta a história da sua prisão. Luaty foi preso por ler um livro proibido pelo MPLA, de maneira que escreveu um livro proibido pelo PCP. Não sei se estava à espera que o PCP tivesse pena da greve de fome que Luaty fez enquanto estava preso, mas não teve sorte. Desde 1921 que os comunistas não se comovem com fomes.

Portanto, Jerónimo de Sousa tem razão. O Avante! não é um festival. Logo, não vai ser alvo de uma excepção. O Secretário Geral do PCP diz também que os comunistas portugueses são muito criativos. Tem outra vez razão. Aliás, a criatividade comunista tem sido regularmente chamada à liça. Esta semana, foi-o a propósito do processo que opõe o PCP ao seu funcionário Miguel Casanova. O tribunal da Relação confirmou a sentença inicial que considerara ilegítimo o despedimento de Casanova.

(Casanova, recordemos, tinha sido despedido depois de uma campanha hostil da entidade patronal, que incluiu mudança abusiva de funções e de local de trabalho, proibição de acesso às instalações de trabalho, entre outras manobras intimidatórias, apenas porque criticava a participação do PCP na solução governativa com PS e BE. Um caso típico de perseguição da entidade patronal ao trabalhador ou, quando o patrão é o PCP, perseguição do trabalhador à entidade patronal).

O PCP diz que o trabalhador “violou repetidamente os regulamentos internos” e que o Partido “apoia o direito de todos os trabalhadores de criticarem as condições de trabalho, mas que isso não dá um cheque em branco para criticar toda e qualquer política interna”.

É patranha! Parece mesmo, mas não foi o PCP que disse isto. Foi a Amazon, que despediu recentemente dois trabalhadores por criticarem a companhia. Não deixa de ser engraçado ver que o PCP se porta, enquanto patrão, como a empresa do homem mais rico do mundo. O que o PCP disse é que é “inaceitável” que o Tribunal queira impor ao Partido um trabalhador que o Partido acha que não serve. Como já tinha dito, aquando da 1ª Instância, que “as normas de funcionamento do Partido são superiores a qualquer lei laboral. É-se funcionário do Partido enquanto o Partido quiser”.

Já sei, já sei: o PCP diz que um escritório do Partido não é uma empresa, o trabalhador não é um trabalhador, o que ele faz não é trabalho, provavelmente o salário não é salário, os descontos não são descontos, os direitos não são direitos. É a tal criatividade comunista. É o tipo de criatividade que se usa no teatro. Embora os comunistas sejam aqueles actores que improvisam, ignorando o texto. Que, neste caso, é o Código do Trabalho.

Por uma feliz coincidência, tudo isto acontece na altura em que se celebram os 75 anos do Dia da Vitória sobre a Alemanha Nazi. Como é habitual, os comunistas celebram a acção soviética na libertação da Europa de Leste. Uma libertação que não se cingiu a 1945, uma vez que voltaram a ter de libertar a Hungria em 1956, a Checoslováquia em 1968 e só não libertaram a RDA em 1989 porque a vontade dos alemães em entregarem-se aos carrascos ocidentais era mesmo muito grande.

Não se percebe o comunismo. Durante décadas, quando alguém discordava e queria sair, não deixavam. Agora, têm o Casanova a discordar mas a querer ficar, e não deixam. Os criativos são mesmo desconcertantes.