Nos últimos dias, tenho lido bastantes comentários sobre a Festa do Avante, classificando as críticas ao PCP como anti-comunismo. Dizem que, em Portugal, se persegue o PCP por tudo e por nada. Gostava muito de acreditar nisso, infelizmente não sou capaz. Não consigo ser tão optimista. Por mais fé que tenha na capacidade do povo português, este é um daqueles parâmetros em que ainda não estamos ao nível dos países mais desenvolvidos. Haverá anti-comunismo em Portugal? Sim, mas não o suficiente. É um fenómeno residual. Não chega para nos compararmos com o que de melhor se faz lá fora.

O anti-comunismo é mais uma daquelas ideias feitas sobre as maravilhas de Portugal, repetida para nos sentirmos bem connosco. São falsas, mas afagam o ego. Como quando garantimos que temos as praias mais bonitas do mundo ou o melhor marisco. Queríamos ser anti-comunistas de renome, mas a realidade é muito diferente. O anti-comunismo que temos (que existe e que até pode ser bom, atenção!) é escasso e completamente ofuscado pelo mais abundante pró-comunismo.

Por exemplo, no domingo assisti, num canal de notícias, ao discurso de encerramento da Festa do Avante. Enquanto Jerónimo de Sousa falava, iam passando notícias em rodapé. Uma delas dizia: “Hong Kong – Polícia detém quase três centenas de manifestantes”. Isto é, a polícia de Hong Kong, sob as ordens do Governo chinês, controlado pelo Partido Comunista da China, convidado da Festa do Avante, deteve 300 manifestantes a favor da realização de eleições.

Ou seja, ao mesmo tempo que o PCP aparenta ser um partido político como qualquer outro, é compincha de um partido político que não é como qualquer outro, na medida em que a China não permite qualquer outro partido além do PC local.

Quando os comunistas portugueses se queixam de serem perseguidos (ou quando não comunistas portugueses apontam uma suposta perseguição ao PCP), esquecem-se que o PCP é julgado por um critério muito mais lasso do que o que é aplicado aos restantes partidos. Há menos de dois meses, António Costa foi criticado (e bem) por ter visitado Viktor Orbán e não lhe ter falado de Direitos Humanos. Tal como o PSD e o CDS são criticados (também bem) por conviverem pacificamente com o Fidesz, partido de Orbán, na bancada do PPE. E como o Chega é criticado (novamente bem) por se dar com a insalubre Frente Nacional. A diferença é que qualquer um destes partidos, por pouco recomendáveis que sejam, tem ainda de internar várias centenas de milhares de uigures em campos de concentração e esterilizar à força mulheres dessa etnia, antes de poder ser comparado ao PC da China (para só referir uma das suas últimas façanhas). Ao lado dos chineses, o Fidesz e a FN são meninos de coro. Tudo bem que são meninos que cantam o Hino da Mocidade portuguesa, mas ainda assim são meninos. Apesar disso, a censura social sobre PS, PSD, CDS e Chega, pelas más companhias que cultivam, é muito maior do que a aplicada ao PCP por confraternizar com um partido com um cadastro tão sujinho que a única parte limpa é que se refere a limpezas étnicas.

Atenção, não havia só artistas chineses no Avante. A Festa contou com mais convidados ilustres. Também marcaram presença o MPLA (cleptocracia angolana de segunda geração), a Associação Yuri Gagarin (antiga Associação Portugal-URSS, grémio de louvor à ditadura soviética), a Frente Popular para a Libertação da Palestina (sociedade recreativa integrante da lista de organizações terroristas da União Europeia), a Associação Amizade Portugal-Cuba (alguém que diga aos comunistas portugueses que quando um cubano está ao nosso lado, não é por ser nosso amigo, é porque tem fome e não se consegue levantar para ir embora) e uma trupe chamada “Solidariedade com a Venezuela”, cujo nome completo deve ser “Solidariedade com os senhores que fazem a vida negra ao povo da Venezuela”. No fundo, uma equipa de sonho, espécie de galácticos das malfeitorias. Presumo que todos tenham participado nas celebrações dos 150 anos de Lenine. Devem ter soprado as velas. E os cubanos levaram-nas para casa, que dão jeito quando falta a luz.

Portanto, quando o PCP se vem queixar dos ataques de que é vítima na comunicação social, é fácil explicar que não tem razão. Qualquer criancinha de 12 anos pode demonstrá-lo através de um desenho. O que é um paternalismo irritante, bem sei. Possivelmente, foi por isso que, em Hong Kong, uma menina de 12 anos foi presa pela polícia de choque enquanto comprava tintas para um trabalho escolar. Não fosse pintar ofensas para o Partido Comunista da China.