Quando um país arde, não flagram só pinhais e telhados: queima-se a confiança. O episódio recente dos incêndios deixou a descoberto várias fragilidades, mas o maior dano causado foi a perceção pública de que, ano após ano, nada muda. Com a agravante que as lamúrias dos políticos exibiram uma distância emocional que se vai revelar fatal, já no imediato. Não é uma questão de “fotogenia da compaixão”, mas de “gramática de presença”: aparecer na hora certa, verbalizar com sinceridade a dor alheia, saber ser voz, sem artificialismos, dos que ficaram sem casa, sem terra, sem trabalho. Sem essa gramática, o que fica é a sensação de vazio moral. O que vimos, com dor, foi um país a gritar enquanto o poder político estabelecido, alienado, seguia a sua agenda festiva, desconsiderando os danos causados pela ausência de empatia.

Portugal está dividido, porque desde há muito que o sistema político vive fechado sobre si próprio, desconhecendo que não há justiça sem escuta. Grande parte dos portugueses vive hoje em “solidão ética”, num estado de abandono de quem foi ferido ou injustiçado e, depois, abandonado pelas instituições quando procuram reconhecimento. Não é apenas o “estar sozinho” ou ter sofrido os danos: é a impotência de se sentir só no plano moral, porque ninguém assume o dever de escutar e responder.

Como lembra António Damásio, a emoção não é ruído que atrapalha a razão: é um mecanismo de julgamento. Sem emoção, a decisão torna‑se mecânica, perde orientação humana; com ela, ganhamos peso de valores, sensibilidade ao contexto e prioridade realista. É por isso que uma conferência de imprensa sobre “meios e dispositivos” nunca substitui um encontro com quem perdeu tudo. E é por isso que a boa decisão pública tem sempre dois verbos: agir e reconhecer. Se falha o segundo, a comunidade ressente‑se e a legitimidade evapora‑se.

A crise dos incêndios é o evento mais visível que nos permite compreender algo que há muito é percecionado pelo comum dos mortais: há um desfasamento persistente entre as prioridades dos decisores e as urgências dos cidadãos. Discutir aeroportos, alta velocidade ou corridas de fórmula um não é pecado; fazer destas obras, porém, conquistas de regime, quando a saúde, a escola e a habitação definham, é miopia política. Penso no meu caso pessoal. Residindo entre a zona do Oeste e Lisboa, vejo-me forçado a pernoitar em Lisboa regularmente porque o sistema político é incapaz de fechar uma ligação ferroviária útil e funcional que ligue as Caldas da Rainha a Lisboa. Não obstante existir uma linha férrea recentemente reabilitada e linhas de metro na Amadora e em Odivelas, o país político que sonha o TGV não consegue executar uma obra óbvia, com pouco mais de trinta quilómetros, ligando a linha do Oeste a Loures/Odivelas ou Entrecampos. Esta obra, relativamente simples, ampliaria o espaço físico de Lisboa, abrindo espaço para inúmeras soluções em matéria de habitação. Ironicamente, não obstante haver já inúmeros estudos, a agonia perpetua-se, neste país que não consegue igualmente ligar de forma rápida e digna Sintra e Cascais, a Lisboa, ou Santarém a Lisboa, por via ferroviária. O mesmo sentimento de autismo intui-se já na chamada “reforma do Estado”, anunciada com pompa e circunstância. É que é difícil acreditar existir espírito reformista quando se anuncia que, na Administração Pública, o governo irá manter a regra do “um por um” (entra um por cada saída). Num tempo de digitalização e IA, qualquer um de nós esperaria que a ambição fosse eliminar redundâncias e apostar na automatização de processos e na qualificação dos quadros, fixando-se metas efetivamente reformistas, v.g., de “um por três”.

A revolta que se assiste nas pessoas tem muito de emoção. E, se continuarmos a não lhe dar resposta adequada, ela vai continuar a ser matéria‑prima para extremismos e populismos. A história do pensamento traz-nos lições úteis. A primeira é um aviso. A raiva tem tendência para nos usar: desvia a atenção, estreita o juízo e convida ao erro. A segunda é um convite: o medo pode ser motor de coragem quando orienta escolhas de alto risco em nome de um bem maior.

Vivemos por estes tempos sob a narrativa do desespero permanente. Existem, porém, estudos que nos mostram que a alegria é, ainda hoje, a emoção mais frequente nos seres humanos, e que os sentimentos positivos surgem várias vezes mais do que os negativos. Nada disto diminui a gravidade do estado atual das coisas. Lembra‑nos, porém, que as comunidades possuem reservas afetivas de cuidado e reconstrução, se o poder político souber convocá‑las adequadamente. Liderar não é colonizar essas reservas com marketing; é criar as condições institucionais para que elas se expressem em ação coletiva, com respostas fiáveis.

Tudo isto converge numa ética simples. Em democracia, “escutar” não é cortesia: é virtude dos que são justos. Escutar é aceitar que as emoções dos outros trazem dados morais: dor, medo, vergonha, esperança. Escutar é reconhecer que, sem esse input, a decisão pública falha, por mais que brilhem os anúncios e as apresentações. Escutar é, por fim, admitir que a autoridade não se perde por descer ao terreno; ganha‑se justamente aí. Quando o país arde, o mínimo ético não é a foto: é a escuta. O resto, por mais caro e sofisticado que seja, corre o risco de parecer fora de tempo e fora de lugar.

Se quisermos evitar a próxima fogueira de desconfiança, a receita não é um curso intensivo de media training, nem anúncios de milhões com promessas de “agora é que vai ser”. É algo mais exigente e mais simples: presença, linguagem e prioridade. Presença para reduzir a solidão ética; linguagem para dar nome ao que importa sem eufemismos; prioridade para alinhar a ação pública com as dores reais. A justiça, em qualquer caso começa no ato humilde de ouvir, e só depois se mede em hectares recuperados, casas reconstruídas e vidas recompostas. Sem esquecimento quando chegar o inverno.