Tenho uma televisão com mais de 20 anos. É de uma marca totalmente desconhecida, se calhar já nem existe, e foi, na altura, a mais barata que encontrei. Seguramente, custou-me menos de 30 contos (150€ para os mais pequenos). Pesadíssima e enorme, com aquela volumosa caixa atrás que tinha coisas pesadas lá dentro. À medida que os anos passaram, essa televisão foi-se deslocando do centro da sala para outras divisões menos importantes. Primeiro foi para a cozinha e agora acabou no meu quarto.

Tenho esperado ansiosamente que ela se estrague para poder comprar uma nova, mas, até agora, nada. Funciona como nova. Há umas semanas, houve um sinal de esperança. Não vos disse ainda, mas deram-me um animal roedor. Mais precisamente, uma cadela Serra da Estrela, Stela de seu nome. A Stela apanhou o comando da televisão, roeu-o, inutilizando-o. Era a desculpa de que precisava e fui comprar uma televisão nova. Nada de muito caro, afinal era para o quarto e tem de caber no cubículo onde estava a velha.

Uma vez escolhida a televisão, já na caixa para pagar, a funcionária da loja tenta vender-me um seguro para a televisão. Digo-lhe que não estou interessado, mas a senhora insiste. E insiste. Quando lhe pergunto o preço do seguro, era um valor totalmente disparatado. Cerca de 15% do preço da TV. E o seguro pouco mais fazia que alargar o período de garantia por um ou dois anos. Logo lhe disse que nem pensar e que a probabilidade de o aparelho se estragar no período de vigência do seguro era bem menor do que 15%. Muito provavelmente, nem a 1% chegaria, pelo que o prémio que estavam a pedir era absurdo. Mas, mesmo assim, a senhora insistia com o seguro, assegurando-me que havia muitas televisões que se estragavam entre o 2º e o 3º ano. Finalmente, respondi-lhe que já estava convencido de que a televisão se podia estragar muito facilmente, pelo que já não a queria. Em vez disso, comprei um comando universal de TV, que me resolveu o problema por 10€.

Esta semana que passou, ao comprar um tablet de 220€, também me tentaram vender um seguro que me dava mais um ano de garantia. O preço desse seguro era qualquer coisa como 25€; não decorei bem, mas era um pouco acima de 10% do valor da minha compra. Novamente, recusei e perguntei ao vendedor se vendiam muitos desses seguros. A resposta foi que sim, que vendiam muitos e foi isso que me motivou a escrever este artigo, com uma recomendação muito simples: não compre.

É simples perceber porque não faz sentido comprar este tipo de seguros. As seguradoras ganham dinheiro com estes negócios, o que quer dizer que, em média, os clientes perdem dinheiro. A leitora pode, naturalmente, argumentar que, caso accione o seguro, então fica a ganhar. Tem toda a razão, mas ainda assim não deve comprar estes seguros. Uma coisa é o seguro da casa, ou do automóvel, bens de valor muito elevado e que apenas ocasionalmente se compram. Em caso de acidente, a despesa pode atingir valores demasiado elevados para uma bolsa normal, pelo que faz sentido fazer o seguro. Mas, para produtos mais corriqueiros, o raciocínio está errado.

Daniel Kahneman, genial psicólogo que ganhou o prémio Nobel da Economia, tem um livro excelente (“Pensar-Depressa-e-Devagar”), onde explica que agente económico racional é uma abstracção dos modelos económicos e que as pessoas comuns sofrem de uma série de enviesamentos que as leva a ter atitudes subóptimas. Por exemplo, Kahneman explica que a aversão à perda (loss aversion) é maior do que o gosto pelos ganhos, o que faz com que percam demasiado dinheiro a proteger-se. Penso (mas não tenho a certeza e não tenho o livro à mão) que dá mesmo como exemplo o dinheiro que se gasta com este tipo de seguros, aconselhando as pessoas a olharem para as suas despesas de forma agregada e não individual. Ou seja, quando estiver a comprar um telemóvel, não pense no seguro para esse telemóvel em concreto. Pense nos vários seguros que vai comprar. Quando se fala de electrodomésticos, como televisões, leitores de DVD e Blu-Ray, aparelhagens, telemóveis, tablets, playstations, etc., a verdade é que, ao longo da vida, compramos esses produtos tantas vezes que o dinheiro que poupamos se nunca fizermos seguro é bem mais do que suficiente para lidar com a emergência de um que se estrague inesperadamente. Seguramente fica a ganhar se nunca fizer seguro.

Esta afirmação é ainda mais verdadeira se nos lembrarmos que, ao contrário do seguro automóvel, estes seguros não são obrigatórios. Só compra quem quer. À partida, quem vai querer mais são as pessoas que têm motivos para acreditar que os seus bens se estragam mais facilmente. Seja porque têm crianças traquinas que partem tudo em casa, porque têm cães gigantes que tudo destroem, porque a casa tem humidades, seja o que for. Este mecanismo de auto-selecção leva a que quem faça seguro seja quem apresenta maior risco. E isto faz com que o preço do seguro tenha de ser ainda mais alto para garantir o lucro de quem os vende.

Portanto, não se deixe levar pelos empregados que lhe tentam impingir um seguro, aproveitando-se da sua aversão à perda. Se resistir, perderá bastante menos.