Entre os negacionistas da existência de um fosso salarial entre homens e mulheres, um dos argumentos mais comuns era que, se isso fosse verdade, então uma empresa que só contratasse mulheres faria bastante mais dinheiro. O argumento faz sentido. Se as mulheres, ao contrário dos homens, forem pagas abaixo da sua produtividade, então as empresas terão a ganhar se contratarem mais mulheres. O problema destes raciocínios lógicos, mas esquemáticos, é que no mundo real há muitas areias na engrenagem e nada é tão simples.

Comecemos pelo óbvio. Quem quer que faça contratações, caso discrimine as mulheres (ou os negros ou o quer que seja), muito provavelmente não o faz de propósito. Se calhar, em algum momento, até faz o contrário — “deixa-me cá contratar uma mulher para este departamento, que isto está cheio de homens”. Quem o fizesse propositadamente, ou, pelo menos, tendo consciência dessa discriminação, sentir-se-ia um autêntico cavernícola e ninguém gosta de se sentir assim. A verdade é que estes enviesamentos são inconscientes e, por isso mesmo, mais difíceis de combater. Por exemplo, Christin Munch, através de uma experiência controlada, verificou que, quando os homens procuram um melhor equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, são mais bem vistos do que quando as mulheres fazem o mesmo. Naturalmente, nada disto é intencional.

Mas há outros aspectos menos óbvios, que podem, contudo, ser também importantes. Como é impossível monitorizar na perfeição a performance no trabalho, um trabalhador mais incompetente tem sempre formas de ir disfarçando a sua inaptidão e, até, de ficar com louros que não são dele. Há também outra questão relevante: um trabalhador que se sinta mal pago e injustiçado só pode fazer valer a sua força se tiver alternativa. Esta minha última asserção, que não é minha mas sim de Gary Becker, tem uma implicação empiricamente testável: em mercados com maior concorrência, o fosso salarial entre homens e mulheres deverá ser menor. Ou, visto de uma forma dinâmica, um mercado que se torne mais concorrencial terá tendência a reduzir o fosso salarial.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.