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Quando do conflito em torno da demissão de Joseph Blatter do cargo de dirigente da FIFA, pareceu um pouco estranho que Putin, Presidente de um país que pretende ao estatuto de superpotência, tenha vindo em defesa de mais este seu amigo que, a julgar pelas declarações dos dirigentes políticos e desportistas russos, se transformou na última vítima do imperialismo norte-americano.

Compreendo o nervosismo dos líderes russos, porque cada vez mais se fala da possibilidade de retirar à Rússia a realização do Campeonato do Mundo de Futebol de 2018.

Mesmo que tenha havido corrupção quando da escolha da Rússia para palco desse acontecimento, acho contraproducente que se avance para um boicote ou para a realização de um Campeonato do Mundo paralelo.

Primeiro, considero que a política e o desporto não se devem confundir, sendo os Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980 e de Los Angeles de 1984 uma prova clara disso. As principais vítimas foram os desportistas de alta competição que perderam oportunidades de brilhar e bater recordes.

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Segundo, o boicote ao Campeonato do Mundo de 2018 seria uma prenda para o Presidente russo e os ideólogos do seu regime, que não se cansam de afirmar que o Ocidente mais não faz do que tentar destruir a Rússia, um trunfo propagandístico mais para atiçar o espírito anti-europeu e anti-americano já reinante no país.

Terceiro – e acho isto o mais importante – a realização dessa competição na Rússia, por paradoxal que pareça, contribuirá para enfraquecer o regime de Putin.

Estão a ser construídos 12 estádios, alguns deles em cidades que nem sequer têm equipas na primeira liga.  Por isso, o mais provável é que alguns deles ficarão apenas como símbolos do faraonismo do Kremlin depois da competição. Além disso, serão construídas numerosas infraestruturas e Putin prometeu transportes grátis aos adeptos de futebol entre as cidades onde se irão realizar os jogos. Se a isto juntarmos o nível de corrupção na Rússia, poderemos concluir que essa competição irá exigir um grande esforço financeiro do país. E, neste caso, é muito difícil esperar retorno.

A curto prazo, o Kremlin até se pode sair bem na fotografia, mas, depois, chega a hora de prestar contas. Uma das razões que justificaram a realização do CM de 2018 é o desenvolvimento do futebol na Rússia, mas, como já se começa a ver, esse objectivo não será alcançado. Os clubes russos continuam a investir milhões de euros na compra de legionários (como são chamados jogadores os estrangeiros), mas isso não contribui para o desenvolvimento do futebol nacional, nem para o aparecimento de estrelas de nível mundial. Quantos futebolistas russos jogam hoje em grandes clubes europeus? Eu não os conheço. Quais os êxitos alcançados pela selecção russa nos últimos anos? Também não conheço.

Por isso, é difícil imaginar como é que os russos poderão vencer a competição nessas condições, como prometem alguns dirigentes desportivos.

Pelas razões apresentadas, acho que o melhor é mesmo deixar que os próprios russos compreendam onde estar a ser gasto o dinheiro que poderia ir para a saúde, educação, habitação, etc.

P.S. Lembram-se do nome de algum russo que viva no seu país e tenha ganho algum Prémio Nobel no campo da ciência nos últimos anos? Ou será que a culpa é do comité que atribui esse prémio?