Há já alguns anos que tomei uma resolução pivotal na minha vida: a de não dar tempo de antena a absurdidades. Contudo, confesso que o texto que se segue é uma assumida resposta a uma das últimas que tive o desprazer de testemunhar, nomeadamente a opinião e resolução de um cronista determinado a recusar ser atendido por um médico que “só” queira fazer 150 horas extraordinárias. Debati se sequer devia satisfazer a sede de notoriedade e a declarada necessidade do referido cronista em cortejar a polémica mas, nos tempos que correm, é cada vez mais importante combater com factos a desinformação que tem por objectivo exaltar e atiçar ânimos sem os melhores interesses da sociedade em vista e que não presta nenhum serviço à mesma.

Vou apelar ao meu argumento de autoridade nesta matéria. Sou médica e faço formação médica no âmbito do meu internato de especialidade. Depois de 6 anos de estudo na faculdade de medicina, um ano de formação geral e 5 anos de formação em especialidade penso que estou autorizada a dizer que sei um pouquinho melhor que o dito cronista aquilo que diferencia um médico medíocre de um bom médico. Por outro lado, tenho também o benefício da experiência internacional, visto que a duração do meu internato médico tem sido passada na Alemanha.

Ora, pasme-se que, em terras germânicas, não é hábito fazerem-se as referidas 150 horas extraordinárias quando se exerce medicina. Pode acontecer que sejam feitas menos, que sejam feitas mais, mas, acima de tudo, aquilo que há muito tempo se tornou em Portugal natural é visto noutro país da Europa como uma aberração não desejada. Significa isto que a Alemanha forma maus médicos? Eu diria que as evidências e a enorme quantidade de medicina de qualidade que é feita na Alemanha em centros de prestígio internacional contradiz esta tese.

Em Portugal, assim como na Alemanha, o médico interno em formação representa a força de trabalho maior na enorme maioria dos hospitais. Estes médicos, para além do trabalho clínico incluindo urgências, têm também tarefas de formação acrescidas como cursos, trabalhos e projetos que têm de desenvolver no tempo do internato que pode variar de 3 a 6 anos. Os requisitos para completar uma especialidade são determinados pelo colégio da especialidade e pela respetiva ordem dos médicos que também determinam o tempo obrigatório para finalizar a mesma. Ora, em lado nenhum está escrito que eu, como médica interna, se fizer horas extraordinárias aos magotes posso concluir a minha especialidade mais cedo, visto que eu através desta “formação” acrescida elevei o meu saber e competência clínica. Aliás, no regulamento da minha ordem dos médicos aqui na Alemanha está escrito explicitamente que essas horas não contam para efeitos de internato. Se horas extraordinárias fizessem a excelência, podíamos formar especialistas em metade do tempo e encher os hospitais por Portugal e Alemanha fora. Podemos sonhar.

Na minha experiência, as horas extraordinárias são na realidade períodos de enorme stress, desgaste físico e mental que em nada levam a uma melhoria do serviço prestado enquanto médico; muito pelo contrário, pioram-no significativamente. Para fundamentar esta afirmação basta ver o que faz a falta de sono às capacidades das pessoas. Estudos mostram que estar acordado durante 17 horas é o equivalente a um teor de álcool no sangue de 0,05% e estar acordado durante 24 horas um teor de 0,10%. Depois de tantas horas a pé, um médico não vai estar apto a tratar doentes, por muito que não queiramos aceitar esta realidade.

Para além das gravíssimas implicações de um constante desgaste na saúde física, cognitiva e emocional dos profissionais e por consequência dos doentes, também é importante falar da qualidade do trabalho que é feito nessas horas. Observação e exame físico de doentes, análises e exames, assim como o uso do pensamento crítico muito acima do nível de um ChatGPT com empatia à mistura em situações de enorme pressão não são propriamente as condições certas para exercer medicina, quanto mais para aprender seja o que for. São, quando muito, situações em que se aplica o conhecimento que já se tem que, no caso dos colegas mais inexperientes, vai ser obrigatoriamente menor do que aqueles que já trabalham na área há algum tempo. Se há a esperança de que em situações como esta, como por exemplo numa urgência de um hospital qualquer com cinco horas de espera para utentes, os orientadores médicos experientes vão ter tempo, capacidade e disposição para ensinar os jovens médicos, desenganem-se. O que vai acabar por acontecer é que esses médicos são deixados à deriva, entregues à sua própria sorte (e azares) o que pode ter implicações graves para todos os envolvidos.

Continua a haver na sociedade, o que o cronista espelha no seu texto, a ideia errónea de que a medicina é uma espécie de trabalho missionário em que limites de horas e respeito pelos profissionais são meras sugestões que podem ser deixadas de lado quando apetece. Que se pode apelar à dedicação e vocação sempre que se pretende impor condições inaceitáveis e vergonhosas. Que se pode eternamente exigir um “dízimo” pelos alegados custos de formação que foi prestada aos médicos e “paga pelo contribuinte”. Que se pagam propinas na faculdade e que os médicos internos são muito mal pagos durante a sua formação no SNS, que bem se podia chamar uma penitência, são pormenores menores.

Esta fantasia abusiva já desvaneceu em países como a Alemanha, que perceberam que, tal como noutras profissões, é preciso oferecer condições dignas, competitivas e atrativas que captem profissionais. Pergunto-me, quem no seu perfeito juízo quereria abdicar de tempo de vida e de qualidade com a família para fazer horas extraordinárias sem fim e prejudicar a sua saúde e dos seus doentes? Aconselho todos os médicos que ponderem este curso a procurar ajuda psiquiátrica ou psicológica, porque tal não é, de todo, saudável.

Parece-me que para o nosso cronista o futuro adivinha-se negro. Com o número de médicos a recusar-se fazer mais de 150 horas extraordinárias a aumentar em Portugal e com um resto da Europa que já está bem mais à frente a este respeito, temo que não encontre quem seja digno de o tratar. Talvez esteja na altura de saltar do teclado para o serviço de urgência e mostrar àqueles médicos malandros como se faz. Mas atenção que não vale fazer “só” 150 horas extra.