«Invento a realidade nas palavras que a inventam – se eu soubesse a palavra dessa realidade. Uma palavra de beleza, de paz, de harmonia. […] Vou inventá-la rapidamente antes de alguém ma negar – meu amor.» Vergílio Ferreira, Para Sempre

O mundo vive nas palavras, que nos segredam o que foi, o que será. Nelas se guardam os feitos do passado, os impérios gloriosos, as cidades derruídas. E nem a incerteza lhes sombreia a essência. A língua, argila pura nas mãos sábias e enrugadas de um oleiro, não sucumbe à descrença nem ao caos. Une prógonos e pósteros, como se o tempo e a distância fossem apenas frívolas mentiras. Afinal, Petrarca e Neruda amaram com os átomos da mesma poesia.

Desde tempos imemoriais, a alma das palavras — a origem, o sentido — ocupou o pensamento do Homem. Foi assim com Demócrito (460-370 a. C.), filósofo grego que, além de desbravar o atomismo e defender a infinitude do cosmo, registou os fenómenos da polissemia e sinonímia. Lembro ainda o polímata Varrão (116-27 a. C.), o primeiro gramático latino, autor do tratado De Lingua Latina, cuja sapiência e argúcia foram notadas por Cícero nos Livros Académicos e por Santo Agostinho n’A Cidade de Deus. E nem se olvide Quintiliano (35-96 d. C.), que nos legou a Institutio Oratoria, doze volumes sobre educação, gramática, literatura, oratória e retórica, quiçá o primeiro manual de ensino.

As palavras são conhecimento, esperança, loucura e fé. Também júbilo e salvação. E ainda ardil, pois «não há linguagem sem engano», como escreveu Italo Calvino em As Cidades Invisíveis. Crípticas ou hialinas, acolhem desígnios, pensamentos, tradições, impedindo que a sabedoria e os mistérios da humanidade se evolem, silentes, como a nossa própria vida. Caem a prumo de todas as épocas, de todos quadrantes. Corre-lhes no sangue a eternidade. Nem o pó do oblívio as apaga ou esconde. Simplesmente, ficam.

Perfeita se revela a síntese de Eugénio de Andrade nos versos que lhes dedica: «São como um cristal, / as palavras. / Algumas, um punhal, / um incêndio. / Outras, / orvalho apenas. / Secretas vêm, cheias de memória. […] / Desamparadas, inocentes, / leves. / Tecidas são de luz / e são a noite. / E mesmo pálidas / verdes paraísos lembram ainda. / Quem as escuta? Quem / as recolhe, assim, / cruéis, desfeitas, / nas suas conchas puras?» (Poesia, Assírio & Alvim.)

Os dicionários são, por conseguinte, bem mais do que catálogos de verbetes enfileirados como batalhões antes da guerra. Ostentosos guarda-jóias, velam uma herança ancestral, um acervo divino. Abri-los é uma cirurgia de peito aberto em busca dos vestígios de outrora, que se acumulam, sem ninguém dar conta, como óbolos numa caixa deixada à porta de um templo milenar.

O termo «dicionário» vem do latim dictio, ōnis (palavra, dicção). A derivação medieval dictionarĭus remonta a 1220, ano em que João de Garlandia, filólogo, músico e poeta de origem inglesa, a usou como título de um opúsculo destinado aos seus estudantes da Universidade de Paris: um glossário, escrito em latim, no qual enumera, além do mais, objectos do quotidiano, partes do corpo humano (terminologias científica e popular) e até os ofícios de quem se lhe deparava nas ruas da cidade. Acreditava serem designações que os alunos deviam reter no «cofre do coração», para se expressarem melhor, como refere no dealbar da obra.

O étimo leva-nos ainda mais longe, visto conter a partícula *deik– (mostrar, pronunciar solenemente), roubada ao proto-indo-europeu, fragmentado entre 3500 e 2000 a. C., fonte da maioria das línguas da Europa e Ásia central. Encontrámo-la, por exemplo, nos gregos deíknumi (mostrar, fazer ver, fazer conhecer), deîksis (citação, demonstração, prova, exposição), díkaios(justo, correcto, honesto) e díkē (justiça, direito, maneira de ser ou agir). E também no verbo latino dicĕre (dizer, mostrar pela palavra, pronunciar).

A língua portuguesa abarca, além de «dicionário», um sem-número de prováveis descendentes: abdicar, apodíctico, condição, dedicar, deíctico, indicar, indiciar, judicial, jurisdição, maldição, predição, prejudicar, sindicar, veredicto, vindicta. E nem Eurídice (do grego Eurydíke: muito justa), condenada aos Infernos no derradeiro olhar de Orfeu, escapa à raiz. Em cada um destes vocábulos, uma passagem se abre, um plano se manifesta.

Somos as palavras colhidas em peregrinação. Como lucidamente escreveu Ludwig Wittgenstein no Tratado Lógico-Filosófico, os limites da nossa linguagem denotam os do nosso mundo — e o mundo e a vida são um só. A língua permite-nos ir além da espuma e conhecer novos horizontes boreais e antárcticos. Nenhuma fortuna se lhe compara. Não admira, por isso, que thesaurus corresponda, na linguística, a uma exaustiva compilação lexical.

Os tesouros simbolizam o conhecimento e a imortalidade, e jamais se encontram sem a perseverança de Jasão e dos argonautas, que rumaram bravamente para a Cólquida, antiga província asiática junto do mar negro, à conquista do Velo de Ouro, guardado num bosque por um dragão. Diferente não podia ser, portanto, o nome dado pelo jesuíta Bento Pereira ao magno trabalho publicado em 1647: Tesouro da Língua Portuguesa. Firmado no património de Bernardo de Brito, Luís de Camões, Duarte Nunes de Leão e Heitor Pinto, entre outros, contribuiu decisivamente para a consolidação da nomenclatura lexical, moldando a tradição ortográfica. O título resume uma viagem epopeica em busca de pedras e metais preciosos, a nossa maior divícia.

O devir tecnológico, tão voraz e delusório, trouxe a crença de que os dicionários, especialmente os seculares, são esconderijos longínquos de palavras em desuso, apenas despertando a curiosidade de caçadores solitários: académicos, bibliófilos, lexicógrafos. Ou, quando muito, de poetas-alquimistas à procura de novos amavios com fórmulas de antanho, debruçados em mesas velhas e tingidas, de tão usadas e escritas, sob «uma pequenina luz bruxuleante e muda», como a imaginada por Jorge de Sena. Nada mais errado, porém. Nada mais irreflectido e enganador. Como disse Vergílio nas Geórgicas (Cotovia): «Feliz aquele que logrou das coisas conhecer as causas / e subjugou sob os seus pés todos os medos […].»

Curioso e inesperado exemplo chega do Rio de Janeiro, cujo calor e brisa atlântica podem sentir-se em qualquer melodia sincopada de Tom Jobim. Conta Ruy Castro, n’O Ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim (Tinta-da-china), que poucos livros de música havia em casa do maestro, no Jardim Botânico, para onde se mudara de Ipanema. Ao invés, nas estantes, cadeirões e até na tampa do piano, muita poesia e dicionários. Sim, dicionários «em várias línguas e de todos os g[é]neros: analógico, etimológico, de sin[ó]nimos, de tupi, de folclore, de pássaros, da flora, da gíria brasileira.» Eram verdadeiros «exércitos de reserva, de plantão para o combate, para a esgrima de ideias». Enamorado das palavras, o compositor queria-as a seu lado. A música, já a tinha em si.

A língua não traduz apenas a realidade. Desfia também a imaginação: os portos em que nunca atracámos, as estações de que nunca partimos, os abraços que sonhamos ter dado. Dos salmos de David, das canções de Dylon e das frases enlevadas de Camilo e Garrett, não brotam apenas verdades e certezas. Fluem ainda sombras e sentidos. A nitidez nem sempre está nos versos, na tela, na imagem. Não raro, a claridade nasce no mais fundo de nós.

Cunhadas em placas de barro, ou escritas a fogo nas pedras da lei, as palavras são estrelas bandeadas e pontilham o Universo. Brilham à noite, de atalaia. De manhã, quando acordamos, revelam o que aconteceu.