Em Mudar de Ideias, o escritor inglês Julian Barnes definiu com mestria literária: «A linguagem é como a maré, como o oceano[.]» Perfeita se revela a comparação. Por mais que tentemos, não conseguimos descobrir cada recanto nem deslindar cada mistério. Mais fácil seria nomear todos os astros que pontilham o deserto do Atacama, onde o céu se transforma em clarabóia do infinito quando a noite se acomoda, rainha em trono de veludo. Ou então contar os grãos de areia que esvoaçam, desvairados, nas tempestades do Mojave. Nada nos impede, porém, de apreciar a pletora de fenómenos que se nos antolham. Não precisamos de escafandro sequer. Basta procurar a claridade. O mar abre-se como no Êxodo. E o tempo cristaliza à nossa frente.

Não são todas iguais, as palavras. Se algumas têm rosto e olhar nítidos, outras não passam de vislumbres que fogem aos sentidos. A maior ou menor visibilidade não se deve, contudo, ao número de sílabas. Já António Feliciano de Castilho sinalizava, no seu método proscrito de ensino, dado à estampa em 1853, que a magnitude pouco importa no âmbito lexical.

Para os mais desconfiados, deu exemplos inelutáveis. O termo «candeeiro», embora quatro vezes maior do que «Sol», designa «um objecto milhões e milhões de vezes mais pequeno». O mesmo sucede com «criatura» e «Deus», refere o escritor e pedagogo, que perdeu a visão em criança, mas não desistiu de estudar nem de contribuir para a alfabetização do país, por acreditar nas virtudes das artes, ciências e letras. Podíamos continuar o exercício até o quebranto nos roubar o fôlego. O Universo cabe, inteiro, numa legião de monossílabos: céu, luz, paz, pó, som.

Enclaustrados em obras antigas, certos vocábulos parecem ter sido proibidos de ver as manhãs, restando-lhes aguardar, serenos e alentados, uma alma curiosa ou, quando menos, condescendente. Outros, todavia, pululam em toda a parte, como se a omnipresença, só ao alcance de algumas deidades, lhes insuflasse as células, qual citoplasma imaterial. A ubiquidade traduz a importância e o poder de cada um na arte de comunicar.

Das palavras repetidas vezes sem conta, uma logo sobressai: «coração». Se consultarmos Bluteau ou Morais, encontramos, de imediato e à cabeça, o significado anatómico, que de beleza pouco ou nada tem: órgão em forma de cone, situado no tórax, entre os pulmões, responsável por bombear o sangue em movimentos ritmados de contracção e dilatação, ou seja, de sístole e diástole, dois termos que, se repetidos com a cadência binária de uma marcha, pouco mais conseguem do que lembrar uma locomotiva enferrujada a vapor. Não obstante a valia da quase-onomatopeia, e não custa nada admitir o mérito sonoro do tecnicismo, só a paciência do boticário ante os receios do hipocondríaco permite chegar ao fim de tão álgida definição.

Tudo muda, porém, se perguntarmos a Camilo. A dado passo, em Amor de Perdição, lemos com deleite e espanto a mais inesperada resposta: «O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para as quais a saudade da ventura extinta é um cautério em brasa[.]» De oferta, ainda trazemos do mesmo parágrafo uma das mil e uma acepções de «amor». Um tanto desesperançada, diga-se: «[L]eva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério.»

A louçania camiliana não se adequa ao rigor da lexicografia, dirão alguns. Ninguém negará, todavia, que tão fortes imagens invadem o espírito como falcões os descampados em busca de presas. E ainda que não queiramos, já não desaparecem. A metáfora não é apenas comparação abreviada, como dizia Quintiliano. É ainda metamorfose, mutação, transporte. A origem não ludibria. Os étimos gregos meta (sobre) e pherein (levar) ainda brilham na raiz.

Fermento de temas literários, a palavra desaponta amiúde em livros de natureza vária, arrebatados ou não. Equivoca-se, porém, quem julga ser património de prosadores e sonetistas. Além de não ter dono, ao contrário do músculo pulsante que designa, anda sempre por aí nas bocas do mundo. É herança universal. Ouvimo-la em toda a parte, até no sem-fim de conversas triviais que animam ruas e cafés até a noite embalar a cidade, e com ela os últimos amantes.

A abastança de expressões idiomáticas é tal, que inventariá-las com êxito não se revelaria possível, ainda que fizéssemos das tripas… Nem mais. Há tantos exemplos quantos os seixos do regato que atravessa o bosque, meio tímido, meio apressado, até se perder ou esgueirar em águas mais profundas. Que se não questione, por isso, a rendibilização máxima dos recursos linguísticos em matérias deste jaez — ou, se preferirem, em assuntos do coração.

Guardamos nele, bem lá no fundo do sacrário, os sentimentos de maior quilate, para que a horda de salteadores sempre à espreita lhes não deite os olhos nem a mão. Aflito ou apertado, só o abrimos a quem queremos. Lacrado e dormente fica, não raro, até novo logro ou quimera.

A chave, ninguém a tem. A senha, ninguém a sabe de cor. By heart, diriam os nossos velhos aliados. Par coeur, os gauleses. A verdade se diga: já os antigos acreditavam entranhar-se nele, e só nele, a memória. A mente sempre foi um espelho baço.

Se vilões e algozes nasceram com uma pedra ali na meia-esquerda, altruístas e clementes carregam um bem luzidio. Ouro puro, dizem. Do mais valioso que há. Ou então um destinado por Deus a uma pomba. Nem por isso se julgue ser coisa de seres vivos apenas. Cada lugar tem o seu. Basta encontrar o néon que expulsa da cantaria a madrugada.

Para convencer alguém, falamos no tom certo e de certa maneira, se me faço entender. Ou agarramo-lo como se fosse diamante, pérola, bola de cristal. Conheço ainda quem o aloje ao pé da boca. É gente que não espera nem tartamudeia, aviso. Nesses casos, a máquina não palpita. Ribomba. E nem mesmo um santo a consegue aplacar.

Ouvi até relatos de alguns em sobressalto, a bater a mil. Céleres como o de Eric Clapton quando assoma Layla ao pensamento, portanto. Tentei compreender, mas não consegui. Afinal, cada um tem «razões que a razão desconhece», como resumiu Pascal.

Notícias felizes nem sempre as há. Nem sempre no-las dão. As outras, as duras e glaciais, chegam em clã e mais depressa. De quando em quando, lá vem a invernia congelá-lo. O mensageiro avança, olhar esfíngico ou compungido, e arranca-o do peito a frio e à força. Sentimo-lo então cair aos pés, estilhaço em palco de guerra. A dor abate-se como alude em vale alpino. E a chaga, erosão descarnada e horrente que se esvai devagar, às vezes fecha, mas nunca sara.

Como se não bastasse a presença em nome próprio, invadiu outros vocábulos ainda. Pedaços da raiz [cor, cordis] volteiam por aí. Que seriam «coragem» e «misericórdia» sem aquela cadência intrépida ou compassiva? Se, em «cordialidade», um tiquetaque suave desponta lá ao fundo, em «discórdia», uma arritmia intrusa e anarca espreita como ladravaz na cercania. E não deixemos à porta as «recordações», visitas de casa que teimam em entrar nas artérias de novo.

Paredes-meias com a alma, o coração não é gravura nem invento. Quando falha, somos candeia sem chama na ventania. Quando bate forte, somos nós o vendaval.

Escrito num bilhete ou numa carta, ou preso nas falanges arqueadas de duas mãos que se aproximam, não cai no olvido nem passa de moda.