«Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo: /
ouço-me para dentro. /
[…] Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.»
Poemas Completos, Herberto Helder (Porto Editora)
As palavras nascem do pensamento, mas habitam a cidade. São imperfeitas, portanto. Impuras e inacabadas. Têm passado, essência, matizes. E nem sempre lhes vemos a alma. O lustre matricial depressa se dilui no enredo dos dias. Imersos na voragem, somos meros passageiros em busca de origens e significados. Detemo-nos e escutamo-las, na esperança de encontrar cada um dos átomos em ebulição que as transformam e lhes dão vida. Nem sempre conseguimos. Nem sempre porfiamos. E nunca estamos prontos.
Se algumas perdoam e redimem, outras separam, retaliam. Magnânimas ou inclementes, facilmente se alojam em nós, sementes em terra fecunda, disfarçadas de alento, dúvida, desassossego. Consentimos na entrada, sem pinga de desconforto ou embaraço. Na verdade, procuramos nelas todas as respostas. Sabemos, lá no fundo, que nos ligam ao universo das coisas intocáveis, invisíveis: ao que não compreendemos nem controlamos, a tudo o que nos escapa com a leveza do orvalho e a insubmissão da areia fina. Não basta, por isso, usá-las sem freio nem amanho. É mister conhecê-las ainda. Até as mais singelas têm âmago, pulsões, magnetismo. E cada uma tem o seu lugar no curso ancestral da língua.
Desengane-se, pois, quem julga serem dispensáveis e sobejos o método e a norma, inimigos do acaso, da entropia. De nada servem fios emaranhados. Acaso as notas musicais se acantonam nos compassos como abelhas alvoroçadas em colmeia? A ordem não flui apenas da gramática, porém. Desprende-se amiúde da própria narrativa, da cadência inevitável de ideias, que sulca novas passagens em velhos caminhos. Embora nos tenha chegado pelo latim narratīvu, o termo enraíza-se no sânscrito gnärus, que expressa precisamente «ter conhecimento de algo». Só contamos o que sabemos, sonhámos, sentimos.
A perícia no uso das palavras determina, não raro, o êxito ou o fracasso de uma opinião, de um plano, de um desígnio. Lembremos, a este respeito, A Arte de Ter sempre Razão (Relógio d’Água), obra em que Schopenhauer enumera um conjunto de estratagemas para singrar num debate. A premissa é clara e actual: «[A] verdade objectiva duma frase e a sua validade na aprovação dos contendores e ouvintes são duas coisas diferentes.»
Para o alemão, a plasticidade da dialéctica oferece um sem-número de ardis a cada adversário. É possível recorrer ao exagero, usar de ambivalência, confundir pela homonímia, argumentar ad hominem (pôr o foco no opositor) e até lançar frases desconexas. Admitir a própria incompetência, com subtil ironia, claro está, também constitui solução. O mesmo se dirá de tornar suspeita a declaração desfavorável, ligando-a a uma categoria negativamente conotada, como o maniqueísmo, doutrina do persa Manes (215-275), que defendia ser a realidade dominada por dois princípios opostos: o bem e o mal.
Quando a batalha está perdida e as forças manquejam, abatendo-se a superioridade do oponente como aluvião durante a tempestade, a solução mais fácil e comum, reconhece o autor, é o ataque pessoal, a que chama argumentação ad personam. Trata-se da vingança pela derrota. O fito deixa de ser o assunto, não importa qual. Ao invés, afina-se a mira e aponta-se ao antagonista, único alvo desse momento em diante. O aniquilamento do orgulho, da vaidade, do amor-próprio pode ser ainda mais doloroso do que o fio da espada.
O grande problema de resolver querelas com impulsos ferinos, intuirá o leitor sensato a transbordar de lucidez e razão, é o mais do que provável caudal de vilipêndios e brados desalmados. Ao vencedor, resta o comedimento, o sangue-frio, para impedir tão espinhoso desenlace. Já Séneca considerava a serenidade do espírito característica do homem sábio, pouco dado a irritações. O estóico não tinha dúvidas: o insulto é coisa de insolentes, de quem não aguenta o próprio êxito.
Ninguém negará ter esbravejado em alguma situação, por uma vez que seja. Palavras desenfreadas tendem a despontar no afã da peleja, no calor da porfia. Presenciamo-las, a toda a hora, nos assuntos da pólis. Quantas vezes irrompem, em temas quotidianos, emoções descontroladas que viram desaforo com a rapidez e incandescência de uma centelha fugidia? Consciente desse anátema, Schopenhauer aconselha-nos a debater com razões e a apreciar a verdade, ainda que não esteja do nosso lado. Quanto aos indignos do debate, a esses que se afundam na desonra e no desbrio, atira com desdém: «[D]eixemo-los falar o que quiserem […].»
O conselho assenta num provérbio árabe, que cita, segundo o qual o fruto da paz nasce da «árvore do silêncio», talvez a mesma que inspirou Vitorino Nemésio no poema homónimo: «Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore? / Em que pontas, a corola do silêncio? […] / Coisas de terra são palavra. / Semeia o que calou. / […] Assim, sílaba e folha, porque não / Num só ramo levá-las / Com a graça e o redondo de uma mão? / (Tu não te calas? Tu não te calas?!).» [Poesia (1963-1976), INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda.]
Não se confunda eloquência com verbosidade e audácia. De nada servem ao tribuno prédicas talentosas, se a notícia não desponta nem se espalha. A facúndia não é troféu nem espólio de palavras fátuas. Alguém viu nascerem tratados em crucigramas de jornal? Desafortunados os que se enleiam em tiradas efémeras e vãs. Por vezes, vale bem mais o silêncio, prenúncio e epílogo da manifestação. Como o mais fiel dos núncios, também entrega a mensagem. E projecta, em certos casos, a realidade sem o véu da incerteza, turvo como nebulosa.
Assim pensava Churchill, timoneiro de complexa têmpera, que arava os discursos como solos bravios antes da sementeira. Ciente de que as guerras não se ganham apenas no mar, em campo aberto ou no breu solitário das trincheiras, redigia (ou ditava) as alocuções em forma de salmos, escolhendo cada vocábulo com a minúcia do caçador de pedras preciosas. Das frases intermitentes, (des)alinhadas em versos, emanavam clareiras, silêncios metamorfoseados em sorvos de reflexão. Tudo decorava. Tudo meticulosamente revia. Não faltavam sequer releituras em voz alta e tom declamatório. E nunca terminava antes de ceifar a última sombra do restolho.
Quem passa revista às memórias da II Guerra Mundial, depara com notável exemplo. Depois de formar governo numa França impotente e golpeada, Pétain propôs um armistício a Hitler, pelo que a Grã-Bretanha estava sozinha. O Velho Leão, para elevar o moral da pátria, dirigiu-se à Câmara dos Comuns em 18 de Junho de 1940. Escreveu o discurso, que repetiu na rádio horas depois, como se de um carme se tratasse, os versos, as pausas, as imagens: «[…] Se conseguirmos enfrentá-lo, / toda a Europa pode ser livre, / e a vida do mundo / pode caminhar para / planaltos vastos e soalheiros. / […] Preparemo-nos, portanto, para / o nosso dever e empenhemo-nos em que, / se o Império Britânico e / a Commonwealth durarem / mil anos, todos possam / dizer ainda: / “Foi o seu mais glorioso momento”.» (O dactiloscrito original, cujo passo traduzi livremente, está disponível no sítio electrónico da International Churchill Society.)
Não se param rajadas com flechas. Tão-pouco bátegas com punhais. Resta-nos, por isso, a força das palavras. Ouçamo-las com calma, vigilantes. Sintamos-lhes o ritmo, o sopro, o silêncio. De nada vale ter pressa. O futuro é um sonho distante, uma chama por acender. Afinal, nunca se viu a Terra estugar o passo nas mil e uma voltas ao Sol.