«Porque aquilo que fiz com a minha única, pequena, bela vida — foi perdê-la / numa maré de vitórias.»
O Tempo é uma mãe, Ocean Vuong (Relógio d’Água)
Quase tudo na vida se decide num segundo, num improviso mais ou menos brusco do destino, que desponta sem avisos nem sinais, indomável salteador de caravanas. À sorrelfa, suspende a jornada e a parança, levando-nos mapas e planos da algibeira. Impassível, deixa-nos prostrados em estradas sinuosas e desertas, vassalos solitários entregues ao embuste e à rapina.
Talhamos o futuro com o aprumo de um escultor devotado, gestos seguros, nunca cansados, a goiva placidamente colada às mãos. E urdimos um sem-fim de narrativas com o esmero de um velho cineasta, sempre pronto a repetir, sempre pronto a renascer, porfiando até destilar o último átomo da realidade no planisfério dos sonhos e da imaginação. Examinamos cada lugar em busca do melhor ângulo, da melhor imagem, de um feixe de luz imune ao anoitecer, a câmara pousada no desvão sombrio do cenário.
Indiferente às subtilezas do pensamento e da vontade movediça, esse amanhã por que ansiamos, debruado com os dedos em janelas largas e embaciadas, nem sempre vem. Ou simplesmente demora, detido em noites brumosas, dédalos lúgubres, portas cerradas. E de nada vale procurá-lo em avenidas soalheiras, atalhos desembaraçados, ruas apinhadas de gente sem pátria nem passado. Nem sequer em portos de navios armados à espera de um meneio da Lua, para soltar amarras e zarpar. Ou no chão ladrilhado de praças históricas, centenárias, em que a fronde de álamos e castanheiros é sombra, taipa e telhado, e onde as estátuas, confidentes linguareiras, contam histórias à luz do dia e se transformam em sentinelas ao sol-pôr.
Por vezes, apenas nos resta deter a demanda e aguardar o resgate, o instante silente e indizível, que debalde tentamos agarrar, em que os dados rodam livremente sobre a mesa, subjugados ao magnetismo bravio da fortuna. E então, submissos ou resignados, guardamos a bússola, o diário e a chave, porque o futuro imprevisto deixa de ser mera conjectura. Abrimos os olhos, está prestes a raiar.
Os pitagóricos, devotos do conhecimento, cultores da música, dos números e da geometria, chamavam kairós à oportunidade, ao momento indescritível e fugaz que se não controla nem ausculta, que não vemos partir nem chegar. Distingue-se do krónos, que escorre pelos dedos e oxida no corpo, envelhecendo-o; que se derrama nos vasos da clepsidra e se evade na areia fina que passa a corredoura estrangulada da ampulheta. E ainda do aion, o tempo infinito, que Heráclito dizia ser uma criança a brincar, ou não reflectissem os olhos de quem ergue castelos na areia a serena vastidão do mar que os inundará.
O kairós não se adivinha nem se repete, não se divisa no horizonte nem se guarda no fundo da gaveta para um dia ensolarado, para uma noite de exílio ou solidão. E jamais se multiplica como as horas, outrora personificadas por Dice (Justiça), Eunómia (Disciplina) e Irene (Paz), trindade helena que presidia às estações e ao ciclo infinito da flora, assegurando a harmonia social. Representantes do tempo circular e das fases da vida, as Horas, filhas de Témis e Zeus, irmãs das Moiras (os Destinos), atalaiavam as portas da mansão divina. Sequazes de Afrodite e Dionísio, deleitavam ainda Pã, deus dos bosques, com a indelével presença.
Na antiguidade, os mercadores romanos nomeavam alguns ventos. Talvez o comércio marítimo a isso obrigasse. Não isento de riscos e desafios, revelava-se célere e pouco oneroso. De terras longínquas, uma pletora de bens chegava a Roma pelo Mediterrâneo, não sem antes atravessar o mar Vermelho ou o golfo Pérsico: especiarias, mármore, pedras preciosas, sal, vidro e até parte da seda chinesa, tão diáfana como polémica. São conhecidas proclamações de Séneca e Juvenal contra o uso na indumentária, conotado com certa volúpia. Refira-se ainda o incenso arábico, antídoto para as emanações da morte no Coliseu e em funerais. Plínio, o Velho, conta ter sido queimado um ano de provisão nas exéquias de Popeia Sabina, segunda mulher de Nero.
O vento benévolo que embalava os barcos até ao cais, como se todos os numes, apaniguados marinheiros, içassem as velas antes de tertuliarem no convés, foi cunhado com a expressão ob portus, decalque de ob portum veniens, «vindo em direcção ao porto». Eis a subtil e anciã origem de opportūnus e opportunĭtas, ātis, termos latinos que nos deram «oportuno» e «oportunidade», e em cujo âmago se entranhou para sempre o kairós, juiz supremo que, sem pedir licença nem perdão, decide se adormecemos em terra firme ou ficamos nova temporada em alto-mar.
Os ventos não são todos iguais. Se, no ameno Mare Nostrum, confluem o gregal e o levante, nomes que indicam a proveniência e dispensam redundantes áditos, o siroco e o harmatão, quentes e secos, nascem nas dunas do Sara com o propósito vandálico de revolver o deserto em dias de fúria bíblica, fazendo dos raios solares, posto que férvidos e incandescentes, meros coriscos desbotados, macilentos. Dos trópicos para o equador, migra o alísio. Nas planícies argentinas e uruguaias, surde o pampeiro. (Que outro nome dar?) Nos estados brasileiros do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, perambula o minuano, navalha amolada em glaciar, pronta a romper o peito e a pele.
No Alpes suíços e austríacos, sente-se o föhn, «secador de cabelo» em alemão, com génese no gótico fôn, que significa «fogo». O ar húmido resfria quando sobe a montanha, logo se metamorfoseando em chuva ou orvalho. Contudo, ao descer a encosta do lado oposto, aquece e debanda em lufadas cálidas e enxutas. Em França, antes de o Inverno se despedir, irrompe, gélido e violento, o mistral, que domina no vale do Ródano, cinzelando a paisagem. A palavra chegou até nós pelo provençal, mas tem raízes profundas no latim magister: o que manda, dirige, conduz.
E nem se olvidem o áfrico (ou ábrego) e o noto, núncios agoirentos de procelas formidáveis, cujas rajadas austrais não detiveram os navegadores, revela Camões n’Os Lusíadas: «Agora vedes bem que, cometendo / O duvidoso mar num lenho leve [pequeno navio], / Por vias nunca usadas, não temendo / De [á]frico e [n]oto a força, a mais se atreve: / Que, havendo tanto já que as partes vendo / Onde o dia é comprido e onde breve, / Inclinam seu propósito e perfia / A ver os berços onde nasce o dia.» (Canto I, 27, Porto Editora.)
Ser protagonista em filme de Óscar, inventar melodias de rádio e orquestra, e marcar o golo da vitória num voo solitário sobre as nuvens ou a planar ao segundo poste à espera da fotografia, não depende apenas da entrega, da firmeza, da vontade. Houvesse a brisa soprado de outro quadrante, e a plateia ter-se-ia levantado, extática, para William Blake. Tivessem as potestades conspirado em noites de Estio e bonança, e Van Gogh viveria enquanto brilhassem as estrelas que pintou. Fosse o kairós devaneio onírico ou invento literário, e a taça seria de Baggio, aplaudido pelos deuses no camarote dos céus em Los Angeles.
Quiçá nada disso importe. Na jangada que voga ao grado da corrente e no saveiro que flutua no rio de madrugada, também há anelos e esperança. O tempo muda, a treva é efémera. Um dia, a névoa levanta. E, sem ninguém dar conta, roubamos o amanhecer.