Em Portugal, uma ocorrência de violência doméstica é registada a cada cerca de doze a quinze minutos. Até setembro deste ano foram mais de 25 mil. Esta cadência brutal, que se repete noite e dia, mostra o que tantas vezes recusamos admitir: a violência doméstica não é um fenómeno invisível, é uma epidemia.

A violência doméstica é um flagelo incontornável da sociedade portuguesa. É uma forma persistente de dominação e controlo, exercida no espaço que deveria ser o mais seguro, o lar, e que se manifesta através da agressão física, psicológica, económica ou sexual.

Os números não mentem. Até 30 de setembro de 2025, a PSP e a GNR registaram 25.327 ocorrências de violência doméstica, o valor mais alto dos últimos sete anos. Este aumento não é uma flutuação estatística, é um sinal claro de agravamento. Quando um país atinge o maior número de ocorrências da última década, não está apenas a registar casos, está a medir a extensão de uma falha estrutural nas políticas de prevenção, proteção e segurança interna.

A sucessão de episódios ao longo do último ano revela uma violência que já não pode ser lida como fenómeno isolado, mas como verdadeira epidemia social. Quando uma sociedade assiste, quase semanalmente, a notícias de mulheres agredidas, perseguidas ou assassinadas, não estamos certamente perante uma coleção de tragédias individuais, mas diante de uma doença cujo diagnóstico deixámos amadurecer durante demasiados anos.

A violência contra as mulheres não nasce do acaso nem do impulso. É mais do que um crime, é o produto de uma herança cultural que ensina o poder como domínio. Durante gerações, a violência de género foi tratada como um assunto de família, um problema privado que o Estado preferia ignorar. Mas a violência já não se limita às paredes de casa nem às geografias que reconhecemos.

Existe hoje uma outra casa, sem portas nem janelas, onde cresce uma cultura de ressentimento masculino que se alimenta do anonimato das plataformas digitais. Nesse território disperso, onde a solidão se confunde com identidade e a frustração ganha vocabulário próprio, floresce a cultura incel. A lógica é sempre a mesma: a mulher não como indivíduo, mas como símbolo, como prémio, como objeto de acesso negado. A violência deixa de ser apenas uma repetição herdada e passa a ser uma narrativa partilhada entre estranhos, uma pedagogia obscura que legitima a posse, a humilhação e a desumanização da mulher.

Esta comunidade subterrânea, feita de queixas recicladas e masculinidades feridas, não nasce longe de nós: cresce nos mesmos ecrãs onde tantas outras vidas se constroem. E é aqui que percebemos que a violência doméstica não é apenas tradição, é hoje também tecnologia, algoritmo, contágio emocional, linguagem replicada a uma velocidade que a cultura demora décadas a reconhecer.

Hoje a violência convive com a internet, com redes sociais que amplificam discursos de ódio, com fóruns que recuperam a retórica da desumanização e com algoritmos que reforçam ideias de superioridade masculina e de um sexo inferior. A modernidade não anulou o problema, apenas lhe deu novos instrumentos. O mundo avança, mas a violência reaprende sempre o caminho de volta a casa, reformulada, digital, mais rápida e mais acessível a quem procura nela um argumento para a sua própria perda de controlo.

O retrato internacional confirma o que se vive cá dentro. Segundo a ONU, cerca de cinquenta e uma mil mulheres e raparigas foram assassinadas em 2023 por parceiros íntimos ou familiares, uma média de cento e quarenta por dia. Sessenta por cento de todos os homicídios de mulheres acontecem dentro de casa. Esta estatística global mostra que o problema ultrapassa fronteiras e revela a persistência de um modelo de desigualdade que, de diferentes formas, atravessa sociedades de todos os continentes.

Em Portugal, o ciclo repete-se. A violência começa quase sempre de forma invisível, um insulto, uma restrição, um controlo disfarçado de cuidado, e cresce na impunidade. Faltam respostas rápidas, proteção efetiva e uma cultura judicial que compreenda o risco. Faltam mecanismos de prevenção que atuem antes da emergência e não depois do crime. O país continua mais ágil a contar vítimas do que a evitá-las, e o tempo da indignação mediática é mais curto do que o luto social.

A violência doméstica é o último reduto de uma mentalidade que ainda vê a mulher como extensão e não como indivíduo. É a face mais brutal da desigualdade e a mais antiga forma de poder. Persistem masculinidades frágeis, uma justiça morosa e uma sociedade que relativiza o medo das vítimas. A cada caso, repete-se a mesma pergunta: como foi possível? A resposta está no modo como, coletivamente, escolhemos não ver.

Pensar políticas públicas para a igualdade e contra a violência é uma urgência que não pode mais ser adiada. É preciso dotar o Estado de meios humanos e materiais adequados, reforçar a articulação entre forças de segurança, magistratura e estruturas de apoio, garantir acompanhamento psicológico, jurídico e económico às vítimas e assegurar que nenhuma mulher tenha de escolher entre a sobrevivência e a segurança. O combate à violência doméstica exige investimento, formação contínua e responsabilidade. Reforçar os instrumentos legais é proteger a vida. Proteger a vida é afirmar a dignidade que sustenta o Estado de Direito.

Esta é a verdadeira nova (velha) epidemia: antiga na origem, moderna nos instrumentos, persistente nos números e trágica nas consequências. E enquanto o país dormita, ela continua a crescer no escuro, à espera que finalmente acordemos.