O que traz o envelhecimento no comportamento das pessoas são novidades por incrível que pareça !

Porque tendemos a pensar  que a velhice não traz novidades no  quotidiano dos mais idosos , por preconceito ou alguma lógica trazida pelos mais jovens.

Vejamos algumas dessas novidades.

As pessoas quando envelhecem perdem paciência com outras mais velhas da sua idade . Isso é um facto. Não toleram os seus discursos pois à primeira frase que ouvem do seu interlocutor advinham o que vem a seguir. Pela sua experiência de vida percebem de imediato as perspetivas pessimistas e os raciocínios que se atropelam em recordações que nada dizem a quem as ouve. Ouvir evocações do passado de alguém é maçador, cansativo e não traz qualquer novidade ou surpresa  a quem escuta.

Talvez por isso os mais velhos preferem ouvir pessoas mais novas mesmo que estas revelem total irresponsabilidade numa primeira análise. Isso acontece em 1.ª instância entre pais e  filhos, estes se forem já crescidos e maduros. Os PAIS gostam de os ouvir mesmo que estes lhe transmitam preocupação; os filhos por outro lado não apreciam muito de ouvir os PAIS. Acham-nos de uma forma geral, fastidiosos e dão-lhes uma atenção reduzida. Mas alguma coisa fica lá,  do que ouvem (!).

Em suma: os PAIS precisam mais dos filhos do que os filhos precisam dos Pais nas relações que estabelecem entre si.

Isso resulta no drama da solidão a que os PAIS se resignam. Não há como inverter este processo a não ser que se faça tertúlias para educar as gerações a entenderem-se melhor a ajudarem-se mutuamente.

Desenho de Helena Abreu; mulher observando borboleta.

Mas voltemos à questão inicial da relação dos velhos entre si. O distanciamento entre eles é crescente e a irritação mútua também. Não é por acaso que não vemos nos lares de 3.ª idade os velhos a dialogarem entre si . É melhor jogarem o Bingo do que conversarem , o que é deveras triste. Mas afinal o que interessa ouvir as doenças e os últimos exames  médicos a que uma parceira ou parceiro esteve sujeito, e este insiste em relatar? Então surgem os discursos entre-cortados entre ambos em qualquer diálogo que se pretenda construtivo e que acaba por não o ser. Que interessa as viagens que fulaninho fez nas suas passadas férias ? Provavelmente dirá que estas foram maravilhosas quando na realidade não o foram. Porque os imensos percalços que teve, ele irá omiti-los. Surge então a falta de honestidade no diálogo e este esmorece caindo em silêncios estranhos.

Mas então quais são as ditas novidades  ? Para os mais velhos de que se falava no início ?

As novidades são aquelas que determinada pessoa velha conseguir encontrar no seu ser, na sua forma de estar na vida . Portanto terá que  encontrar esse espaço de novidade dentro de si mesmo. Dentro das suas limitações físicas cada vez maiores e psíquicas com cada vez mais amnésias ocasionais.

As novidades são perversas pois são episódios de lutas, no fundo consciente mas têm que se ter diariamente para vencer o imobilismo e as adversidades. As adversidades poderão ser elas o descrédito na profissão, a falta crescente de mobilidade, o passar a ser invisível nas ruas e até perante o sexo oposto, como muito bem relatava Leonard Cohen.

As novidades são um conjunto de novos interesses e uma nova visão arredada das recordações e do pessimismo. Perceber a beleza da Natureza que a envolve e procurar ajudar o seu próximo sem qualquer interesse . O tentar ler um pequeno livro,  mesmo que a preguiça a tente dominar. As novidades  passam por saber olhar-se ao espelho  e saber aceitar o seu rosto transfigurado e mesmo assim fazer um esforço por se sentir  vaidoso. Atrever-se a pintar o rosto. A novidade  passa, por fim, por sentir-se feliz por ainda andar neste mundo ao reparar que outros partiram inesperadamente cedo .

O envelhecimento é algo cínico  bem o sabemos,  mas resta sorrir e ouvir os passarinhos à medida que se pressente que se chega perto do fim, mas saber adiá-lo com ilusão.