O debate entre os 11 candidatos à Presidência da República teve um mérito indiscutível, mostrou, sem filtros, o estado de maturidade e de imaturidade da política portuguesa. Numa noite longa, marcada por excessos retóricos, ambiguidades constitucionais e alguma tentação populista, ficou claro que nem todos os candidatos compreenderam o essencial, o Presidente da República não é um comentador permanente da atualidade nem um líder partidário com poderes reforçados.
Demasiadas intervenções confundiram intervenção com confrontação e autoridade com ruído. A insistência em frases feitas “não serei uma jarra”, “não ficarei calado”, “direi tudo o que penso”, revelou mais ansiedade política do que sentido de Estado. O cargo presidencial exige palavra ponderada e não reação impulsiva; influência institucional e não espetáculo.
Foi precisamente por contraste que algumas candidaturas se destacaram.
António José Seguro apresentou-se como uma das vozes mais consistentes do debate. Num contexto de gritaria e simplificação, optou por um discurso sereno, estruturado e consciente dos limites e das responsabilidades do cargo. Não prometeu aquilo que o Presidente não pode cumprir, nem se refugiou em generalidades. Falou de coesão social, de desigualdades e de confiança nas instituições com um registo que muitos outros evitaram, o da responsabilidade política. Num debate onde abundaram candidatos que parecem querer governar sem votos, Seguro lembrou que a força do Presidente está na credibilidade, não na ameaça.
Também Cotrim Figueiredo se destacou pela clareza liberal e pela disciplina institucional. Num palco propício a excessos ideológicos, trouxe racionalidade económica e uma visão consistente do papel do Estado e das liberdades individuais. Mais importante ainda, demonstrou compreender que o Presidente não deve ser um bloqueador sistemático nem um ator omnipresente, mas um garante do funcionamento democrático e da previsibilidade política, algo cada vez mais raro num debate dominado por impulsos disruptivos.
Em contraste, vários candidatos mostraram uma preocupante leveza na forma como encaram crises políticas. Houve quem tratasse conflitos institucionais como inevitáveis ou até desejáveis, e quem confundisse vigilância democrática com permanente desconfiança do sistema. Essa visão não fortalece a democracia, fragiliza-a.
Também a política externa foi usada, por alguns, como palco de afirmação ideológica, esquecendo que o Presidente representa o Estado português, não uma fação. O excesso de moralismo e de certezas absolutas revelou desconhecimento da prudência que a diplomacia exige.
No conjunto, o debate mostrou que há candidatos movidos mais pelo desejo de protagonismo do que pela compreensão do cargo. Mas mostrou também que ainda há espaço para uma Presidência adulta, previsível e respeitadora da Constituição.
Num tempo de instabilidade política e fragmentação partidária, isso não é pouco. É, aliás, essencial.
Os eleitores não escolherão apenas uma personalidade. Escolherão um estilo de Presidência que recorre ao ruído permanente ou à influência silenciosa, ao conflito fácil ou à estabilidade exigente. No meio do barulho, António José Seguro e Cotrim Figueiredo provaram que ainda é possível fazer política presidencial com seriedade, sem ceder à tentação do aplauso imediato.
E isso, num debate como o de ontem, fez toda a diferença.