Celebram-se hoje 50 anos sobre o 25 de Novembro de 1975, uma efeméride que continua a não ser consensual. Para uns, foi um dia tão importante quanto o 25 de Abril. Para outros, foi uma terça-feira.

Desde essa data marcante ou indiferente passaram-se 18262 dias. Que é justamente o número de versões conhecidas sobre os acontecimentos do 25 de Novembro. A história desse dia tem tantos lados que podia ser uma figura geométrica chamada vintecincodenovembrógono.

Estive os últimos dias a ler as várias reportagens, crónicas e entrevistas que têm sido publicadas desde há um mês, com pontos de vista distintos, e julgo ser capaz de apresentar, finalmente, um resumo factual e abrangente do que sucedeu no 25 de Novembro de há 50 anos. Como um cozinheiro que utiliza o conjunto de ingredientes da sua despensa para confeccionar uma macedónia, fui fiel a todas as memórias, esforçando-me por encaixá-las integralmente na narrativa. Às vezes pode parecer que os sabores não combinam, mas uma pessoa habitua-se. Ora bem, o que se passou no 25 de Novembro foi o seguinte:

Uns dias antes tinha havido um cerco de metalúrgicos à Constituinte, um momento de grande tensão e descontração, em que os deputados sentiram medo e tranquilidade. O país percebeu que estava prestes a cair numa ditadura comunista e fascista. Ou a continuar a sua vidinha normal. No dia 25, a extrema-esquerda, uns grupelhos de barbudos despenteados sem qualquer tipo de organização e que não faziam mal a ninguém, mobilizou-se com os paraquedistas e a restante esquerda militar do COPCON. Começaram a tomar bases da Força Aérea, para fazerem um picnic. Também ocuparam a RTP, não porque a tomada dos meios de comunicação de massas seja típico de golpes militares, mas para obrigá-la a passar o resumo do Boavista – Benfica, pois o alferes Morgado não tinha visto o golo do Shéu. Isto com o beneplácito do PCP, que não sabia de nada. O objectivo era uma insurreição popular armada para acelerar e aprofundar o processo de democratização, parando-o. A URSS estava ao corrente e muito interessada no desfecho, por isso disse que não se metia.

Esta movimentação da extrema-esquerda, da esquerda militar e dos comunistas, no sentido de não assaltarem o poder era, como é óbvio, um plano da direita moderada, da extrema-direita bombista e dos EUA.

Entretanto, alarmado e sereno, o general Costa Gomes convocou Ramalho Eanes, Melo Antunes e Vasco Lourenço a Belém com a máxima urgência para, com grande seriedade, lhes perguntar se queriam jogar uma partida de sueca. Otelo Saraiva de Carvalho não foi convocado porque estava metido no golpe e, evidentemente, porque a sueca não se joga com 5.

Otelo, recorde-se, era o grande herói do 25 de Abril que tinha oferecido a Portugal o sonho da democracia, da liberdade e também do estalinismo. Mais tarde, viria a patrocinar uma ONG dedicada a cuidar dos mais desprotegidos e a rebentar bombas.

Apesar disso, a situação não era de todo preocupante, o que até levou Mário Soares e outros líderes partidários a aproveitarem o chamado “Verão de São Martinho” e irem de férias para o Norte de Portugal.

No fim do dia, entre outros, destacou-se Jaime Neves, comandante dos comandos, um super-homem que cuspia fogo pela boca, salvava órfãos, organizava peditórios da Liga Portuguesa Contra o Cancro e era um grande canibal e fã de Adolf Hitler.

Entretanto, os jovens estudantes comunistas esperavam a entrega de armas, mas devia ser só para as guardar e esconder, pois o PCP não desempenhava qualquer papel no que se estava a passar. Eventualmente, o partido comunista acaba por recuar para uma posição de onde nunca tinha avançado, imitando aquelas danças caribenhas, tipo salsa ou bachata, em que se anda para a frente e para trás sem sair do mesmo lugar.

No 25 de Novembro, portanto, aconteceram 4 coisas: nada, salvou-se a democracia do PCP, salvou-se a democracia e salvou-se o PCP. PCP que, de tão agradecido, nem quer ouvir falar desse dia. No 25 de Novembro não se ilegalizou o PCP, mas pelo PCP ilegalizava-se o 25 de Novembro. O PCP, que tem motivos para celebrar, não quer; a direita, que até hoje continua ressabiada por não ter alcançado nenhum dos seus objectivos, exige festejar a data com pompa e circunstância. O PS ganhou à extrema-esquerda, mas tem pena, com o apoio da direita moderada, que rejeita. Muito resumidamente, no 25 de Novembro a esquerda acusa a direita de querer ficar-lhe com os louros de uma vitória sobre o PCP e a extrema-esquerda que não existiu.