Gouveia e Melo, como alguém disse em tempos sobre a Rússia, é uma charada envolta num mistério dentro de um enigma. Em poucos meses, já foi de direita, já foi de centro e agora é de esquerda; já foi o homem que vem de fora do sistema e agora é o homem que quer defender o sistema; já foi um militar que não queria ser político e agora é um político que nos lembra sempre que foi militar.
Quando primeiro desceu dos céus para se apresentar à pátria, o almirante vinha embrulhado nas vestes puras de um nobre militar pouco habituado às delicadezas das elites da bolha. Proclamou: “Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros”. Isto era ainda no tempo em que o pré-candidato jurava que nunca seria candidato apesar de toda a gente saber que era apenas uma questão de tempo até admitir que o que queria mesmo era ser Presidente da República. Gouveia e Melo acabou por fazer o exato contrário de William Sherman. Quando, em 1884, o Partido Republicano estava a tentar convencer este general da Guerra Civil a candidatar-se à Presidência, ele foi inflexível e respondeu com uma frase que se tornou famosa: “Se propuserem o meu nome, não aceitarei; se me colocarem no boletim de voto, não farei campanha; se me elegerem, não tomarei posse”. Já Gouveia e Melo, parecia disposto a tomar posse antes mesmo de alguém propor o seu nome.
Depois de despir a farda, Gouveia e Melo continuou disponível para fazer os “malandros” passarem pelo fio da espada. Mais: ao vestir o fato e gravata de um político, declarou que a sua maior qualidade era a de vir de fora dos partidos e de fora do “sistema”. Como é natural, tudo isto fez com que o eleitorado desgostoso com o regime ficasse fascinado, com os olhos fora das órbitas. Durante uns tempos, até André Ventura permaneceu paralisado ao perceber que os seus votantes tinham descoberto um potencial novo ídolo. Mas, quando o líder do Chega decidiu avançar com uma candidatura própria, travou automaticamente qualquer caminho que o almirante fizesse pelos eleitores da direita radical.
Depois de um período de silêncio estudado, Gouveia e Melo começou aos poucos a mudar. Primeiro, descreveu-se como estando higienicamente equidistante entre o PSD e o PS. Rigorosamente ao centro, como o Picoto da Melriça, tentou não se comprometer com nada que lhe pudesse custar um voto. Colocado perante um qualquer problema político, a opinião dele era a de que “sim”, a de que “não” e a de que “antes pelo contrário”.
Enquanto hesitava, Gouveia e Melo percebeu duas evidências. Primeira evidência: o eleitorado da AD estava já entregue maioritariamente a Marques Mendes e residualmente a Cotrim Figueiredo, por isso não fazia sentido seguir o trilho do PSD. Segunda evidência: a candidatura de António José Seguro não tinha fôlego nem combustível para agregar todos os votos do PS. Tendo em conta isto, Gouveia e Melo mudou a trajetória: foi aproveitando entrevistas e intervenções para elogiar Mário Soares, para criticar o governo e para se mostrar genericamente disponível para acolher os votos dos socialistas. Há dias, no debate com António José Seguro, o almirante abandonou qualquer vestígio de timidez e declarou, com orgulho, que se sentia o representante do PS nestas presidenciais.
Como se vê, Gouveia e Melo veio de longe, de muito longe, e teve de andar bastante para chegar aqui, a este abraço fraterno aos socialistas. Por isso, é compreensível que os eleitores sintam uma dúvida lancinante sobre se as mutações políticas do almirante terminaram ou se continuará, furiosamente a galope, em busca de qualquer voto que lhe permita chegar ao poder.