Foi um fenómeno, caro leitor. Daqueles para contar. As presidenciais costumam ser aborrecidas. Estas tinham tudo para ser ainda mais aborrecidas. Porque o Presidente não tem poderes executivos e é pouco mais e pouco menos do que a Rainha de Inglaterra (sim, para efeitos de figura de estilo, há-de ser sempre rainha). Porque o país tinha acabado de vir de legislativas, que são as eleições que, supostamente, contam alguma coisa para o baralho, e já estaria um bocado farto disto de ter de ir a votos. Porque não havia nenhum grande candidato ou, pior, as eleições estavam já alegadamente ganhas para um outsider. Como foi que chegámos aqui? A esta incerteza a dias do facto? Como foi que um leque de 11 não presidenciáveis deu as melhores presidenciais dos últimos 20 ou 30 anos?
Estas foram as primeiras eleições em que todos os candidatos fizeram uso plenamente consciente do tempo que vivemos: dos media constantes em torno deles, das redes sociais, dos estudos de opinião a saírem quase diariamente, da voracidade da informação e da velocidade com que a nossa atenção hoje escolhe um tema como o fim do mundo e amanhã já o descartou e passou a outro. Foram as primeiras eleições em que todos compreenderam que os ciclos noticiosos que antes podiam durar semanas ou meses, hoje dificilmente sobrevivem ao súbito aparecimento do dia seguinte.
Se, em tempos, a política se fazia com instinto, nestas presidenciais tudo foi cálculo. Imagem cuidadosamente preparada, debates cuidadosamente preparados. Não voltariam a cometer o erro de ignorar as redes sociais, não voltariam a cometer o erro de subestimar a importância de mostrar um lado mais vulnerável ou humano e de ir aos programas de entretenimento e de humor, não voltariam a cometer o erro de não dar atenção científica às sondagens, não voltariam a cometer o erro de não mudar de estratégia durante a campanha se fosse preciso, não voltariam a cometer o erro de se regozijarem no conforto apenas do seu eleitorado. E, no fim, tanto estudo, tanta cautela, tornaram-nos pouco moldáveis a esse bicho temperamental chamado realidade. Tirou-lhes jogo de cintura ou entorpeceu-lhes o instinto. Os erros acumularam-se. Os erros ditaram tudo. Os erros e um velho pecado tão pouco tecnológico, mas tão bíblico: a cobiça.
No princípio, veio um militar de fora da política que liderava todos os estudos porque estava acima dos partidos e as pessoas cansadas do sistema do costume. Depois, esse militar começou a falar e a desgastar-se, tentava ser tudo e nada, não hostilizar um só voto, porque cobiçava todos. Perdeu a pouca espontaneidade que tinha, tornou-se mais estudado do que os políticos profissionais. Era suprapartidário, mas encheu a sua campanha de especialistas dos partidos. Era contra a baixa política, mas passou o tempo a atacar os adversários. Não era de esquerda nem de direita, mas, um dia, percebendo ou avisado de que o espaço à direita estava superpovoado de candidatos e a esquerda livre, lembrou-se de dizer que representava o espaço do socialismo. Acabou a candidatura suprapartidária, o lugar a orbitar sobre a pequena política.
Então, emergiu Marques Mendes. “O valor da experiência”, dizia, certeiramente, o seu cartaz. Era um pequeno Marcelo, mas que opções tínhamos? Não era dos favoritos da direita, portanto, também não incomodava assim tanto a esquerda. Era experiente e dialogante e, ao menos, sabíamos com o que contar. Mas Gouveia e Melo ainda não tinha desistido do centro e Cotrim de Figueiredo de aproveitar a fragilidade da direita tradicional. Primeiro, foram as insinuações das pressões para desistir; depois, as acusações de “facilitador”. Levaram Mendes ao fundo, acorrentado, precisamente, ao “valor da experiência”, do passado que não soube explicar.
Cotrim subiu, subiu muito, mas tinha partido muito de trás – eram agora cinco empatados -; era preciso subir mais. Já tinha metade dos votos da AD, Marques Mendes só um terço – não era possível ir buscar-lhe mais. Então, foi tentar pescar a outro lado, aos eleitores do Chega. Quis ficar bem com Deus e com o Diabo (o leitor decide quem é quem); com a direita moderada e com a radical. Deu um tiro no pé que por pouco não encontrava petróleo. A campanha tinha o magnífico mote de “Imaginar Portugal”. Podem dobrá-lo e guardá-lo para a próxima. Nesta, quase não lhe deram uso.
Entretanto, num reino muito distante, já Jorge Pinto se tinha autodestruído e levado com ele o Livre, único partido à esquerda que ainda ia crescendo. Catarina Martins e António Filipe conseguiram a proeza de se salvar da explosão, ficar a boiar no fim da corrida, manterem-se à tona e salvarem Bloco e PCP do naufrágio tão anunciado e temido. Sobrou para Seguro o suplemento de alma. Tinha os votos dele e agora os do Livre, os do almirante que lhe quis tirar o socialismo e uns de Mendes, que involuntariamente lhe passara o testemunho de guardião do centrão moderado. Tinha até, imaginem, o apoio do PS de Costa e Sócrates: Augusto Santos Silva, Carlos César, Ana Catarina Mendes, um a um, a taparem a fotografia com uma mão e a porem a cruz com a outra.
E Ventura, pirómano de serviço, desta vez, nem precisou de acender o fósforo – e ele que vinha com tantos: cartazes sobre ciganos, frases sobre três Salazares, até a castração química dos pedófilos recuperou num debate… Não era preciso. Deixou-se ficar a ver o circo a arder. “Moderado”, chamou-lhe Cotrim.
E foi assim que, depois de tantas reviravoltas, e num boletim onde vão constar ainda mais três candidatos na qualidade de alínea “Outros” e ainda mais três como atestado à monumental incompetência burocrática nacional, ficámos, provavelmente, reduzidos a dois: ao “Presidente do Povo”, como Ventura sacou da manga, brilhantemente, para o cartaz da recta final, e ao banal e profético “Vote pelo Seguro”, do candidato que começou a pedir que não o metessem em gavetas, não fosse alguém lembrar-se de que era socialista de toda a vida e sim esse suprapartidário impoluto que Gouveia e Melo sonhou ser e não conseguiu.
Nisto, lá fora, o mundo muda a velocidade vertiginosa, a História faz equilibrismo num ponto de viragem, e o lugar de piloto do país neste lugar e neste tempo dramáticos e incertos, que é das poucas coisas importantes que um Presidente da República pode ser e fazer, permanece, tristemente, livre. Tirando uma banalidade ou duas, ninguém quis falar de coisa importante alguma. O que faremos num cenário de guerra? De colapso da NATO? De fragmentação da UE? De corrida à energia e ao armamento? De crise climática? Da revolução tecnológica?
Domingo, vamos a votos. Mas depois desta formidável campanha, a pergunta que fica, caro leitor, é: afinal, porque é que esta gente toda quer tanto ser minha e sua Presidente, afinal?