Com o aparecimento de vários candidatos, e de candidatos a candidatos, fui perguntar ao Cónego Jeremias se também era candidato.
– Claro que, dada a minha condição clerical, não sou candidato, mas não como muitos não candidatos que andam por aí, que são candidatos a serem candidatos.
– Mas são, ou não, candidatos?!
– São candidatos que não dizem que são candidatos, mas que querem ser candidatos. Está a perceber?
– Para dizer verdade, nem por isso …
– Então, a condição necessária para que alguém se candidate é, precisamente, não dizer que é candidato. Entendeu agora?!
– Pois, se quer que lhe diga, ainda não …
– Oh homem, você é mesmo burro! Então, se um verdadeiro candidato diz que é candidato, candidata-se a não ser candidato, porque o verdadeiro candidato tem de parecer não candidato, para ser candidato. Está claro?!
– Mas não seria mais lógico que o candidato se declarasse como tal?!
– Você, decididamente, não percebe nada disto! Se alguém se precipita e diz que é candidato, é óbvio que se está a fazer ao cargo, que é um interesseiro, um chico-esperto que quer passar à frente dos outros candidatos do seu partido, etc.
– Então, que deve fazer quem se quer candidatar?
– Exactamente o contrário: não dizer que é candidato, para fingir modéstia e desapego do poder, desinteresse pelo tacho e respectivas mordomias, espírito de serviço à causa, fidelidade à chefia partidária, abertura em relação a outras candidaturas da mesma área política, etc.
– Mas isso não é hipocrisia, se se quer ser o próximo Presidente da República?!
– Claro que é, mas é assim que a coisa funciona! Não basta ambição, é preciso também esperteza saloia, isto é, não dizer que se é candidato e fazer tudo para o ser, nomeadamente minando as outras candidaturas da mesma área política!
– Tudo como?!
– Precisa de se dar a conhecer e criar uma task force apartidária, mas com boys do partido, valha a contradição, que não é menor do que a de um político partidário deixar o partido ao candidatar-se, ou presumir que, uma vez eleito, vai ser presidente de todos os portugueses, quando é óbvio que irá favorecer os seus correligionários, em detrimento dos seus adversários.
– Que opiniões deve manifestar o candidato na pré-campanha?
– Nada que comprometa, como é óbvio! Deve procurar agradar à comunicação social, para que seja benevolente na campanha, publicando sondagens animadoras, mesmo que não sejam objectivas, como geralmente acontece, e, sobretudo declarando, à partida, a sua vitória nos debates com os outros candidatos presidenciais. Sem esquecer a questão climática, a igualdade de género, o racismo, a xenofobia e os populismos, nem as referências às mulheres, aos jovens, aos pensionistas, aos emigrantes, etc.
– Mas é preciso piscar o olho a tanta gente?!
– São muitos cães a um osso e, por isso, é preciso caçar todos os votos possíveis.
– E em termos de imagem?
– Se se tratar de um cavalheiro, é fundamental um fato escuro, com camisa branca e gravata discreta q.b. Tem de ter pose de Estado, a aparência de alguém que, mesmo só tendo sido vereador suplente de um município de cem habitantes, pareça ser um senador da República, ou um intelectual brilhantíssimo, embora sem obra conhecida.
– Mas o fato que tem a ver com isso?!
– Tudo!! Então o meu amigo ainda não percebeu que 99% dos que vão votar no almirante o fazem à conta da sua impoluta farda de militar?!
– Acha que sim, Senhor Cónego?!
– Não acho, tenho a certeza, até porque do homem pouco mais se sabe, para além de ter sido responsável da gestão das vacinas, a nível nacional.
– Mas as pessoas vão votar numa farda?!
– Não se esqueça que é uma farda de almirante, cheia de condecorações que, por sinal, até fazem um bonito efeito. Olhe que, como cartaz, não há melhor!
– Seria uma boa publicidade a um detergente, pois, branco, mais branco, não há!
– Sem dúvida! Tendo em conta o destaque e a alvura do oficial de Marinha e a pequenez relativa dos outros candidatos, o Conselheiro Acácio podia escrever uma novela queirosiana intitulada ‘O Branco de Neve e os sete anões’!
– Mas não são mais importantes as convicções dos candidatos?!
– Ó homem, isso já não se usa! Além do mais, não se esqueça de que eram ‘católicos’ os três presidentes que promulgaram as leis do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da eutanásia! Há muitos que se servem da sua fé para ganhar votos, mas depois são mais fiéis ao príncipe deste mundo do que a Deus.
– Mas, se o eleitorado vota só pelas aparências, isso não é populismo?
– Pois, para evitar que vá para o poleiro outra vedeta televisiva, quer-se agora um militar de porte austero. Não seria inédito porque, para além dos presidentes militares do Estado Novo, o último dos quais até era Almirante, também na primeira República foi eleito um militar como Presidente: Sidónio Pais, o Presidente-Rei!
– E, para terminar esta nossa conversa, quer fazer um prognóstico?
– Meu caro, prognósticos, como dizia o outro, só no fim do jogo! Mas, se os portugueses estão cansados dos partidos políticos e dos seus candidatos, se querem um chefe de Estado que seja, de verdade, suprapartidário, que não seja o padrinho de ninguém e que prestigie a função e o país, se calhar o que querem mesmo é um rei …