1. A diferença tornou-se-me óbvia num consultório veterinário. No início algo parecia estranho, fora de sítio. O veterinário tocava no animal. Apalpava-o. Via-lhe os olhos, os dentes, as orelhas, as patas. Tocava-lhe uma e outra vez. De repente, fez-se um clique e percebi o que ali me surpreendia: há quanto tempo não têm os humanos uma consulta assim? Uma consulta em que o médico os olhe e lhes toque? E não, a culpa não é apenas do monitor do computador em volta do qual giram agora as consultas médicas (nesta matéria do computador como protagonista principal da consulta, público e privado não se distinguem).

A verdade é que a nossa relação com o corpo humano é cada vez mais desumana. E nada como ir a um consultório veterinário para o constatar: ali não há medo de tocar, nojo dos vómitos, nem horror a ter de limpar um animal incontinente. As pessoas lidam actualmente com muito mais naturalidade com o corpo dos seus cães e gatos do que com o dos seus familiares.

A própria linguagem acusa esta humanização dos animais e desumanização dos humanos: ao mesmo tempo que num consultório veterinário ou num jardim é cada vez mais difícil marcar que gostando nós muito do nosso animal ele é isso mesmo – um animal e não o “nosso rapaz” ou “a menina” – criou-se para os humanos um Estatuto do Cuidador Informal que se não tivermos atenção acabará com as referências a pais, filhos, mães, irmãos… transformando-nos a todos em assépticos cuidadores. O apagar do parentesco ou a sua transformação numa ficção ideológica – crianças com duas mães ou dois pais no seu registo de filiação – é um reflexo desse presente desencontro entre o corpo humano e a ideologia.

Não por acaso tudo neste nosso corpo se tornou pretexto para aplicação de uma moldura ideológica: o corpo tem sexo mas ao sexo há que aplicar a grelha do género. Se do sexo passarmos para a cor da nossa pele entramos no despotismo do absurdo: oficialmente combate-se o racismo mas simultaneamente racializa-se de forma obscena a sociedade. Veja-se a candidata por Lisboa do partido Livre que transforma a sua candidatura numa questão de cor de pele, declarando esta coisa que seria patética não fosse um exercício de má fé: Os eleitores vão decidir se desejam uma mulher negra no Parlamento”…

Sim, o corpo humano é cada vez mais a matéria-prima da demagogia neste admirável mundo novo.

2. Na Amadora passeiam pelas ruas  porcos vietnamitas provavelmente largados por alguém que nunca imaginou como ia crescer o porquinho que levara para casa.

Na televisão e revistas da especialidade somos regularmente informados naquele tom reservado às notícias fofinhas que o artista A se tornou vegan para não provocar impacto ambiental no planeta, como se uma alimentação exclusivamente de legumes e cereais não tivesse impacto ambiental algum, nomeadamente nas maiores áreas que teriam de ser afectas à agricultura. (Amiguinho, amiguinho mesmo não digo do planeta no seu todo mas pelo menos do ambiente em Portugal era pelo menos uma vez por mês trocar o tofu pelo cabrito!)

No campo proliferam os javalis. Os prejuízos são muitos. A medo, as autoridades autorizam mais caça àqueles animais – a caça agora chama-se “correção extraordinária da densidade de javalis”. Não fosse soltarem-se as fúrias dos auto-proclamados amigos dos animais, o presidente do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), Nuno Banza, viu-se na necessidade explicar que a esterilização dos animais não é solução, pois ‘implica chegar até eles e manuseá-los’ e ‘não se usa em animais selvagens com uma dispersão territorial como a do javali, simplesmente porque não tem efeito’.”

Nunca tantas pessoas declararam de forma tão expressiva o seu amor pelos animais e pela Natureza mas nunca a ignorância sobre a Natureza, o campo e os animais foi tão grande. É certo que às vezes até é melhor que seja assim porque os animais no seu estado mais natural têm comportamentos que os activismos não toleram, como acontece com os galos que estas senhoras espanholas acusam de violar as galinhas.

Tudo isto se está a traduzir numa produção legislativa insana feita para agradar aos eleitorados urbanos — como é o caso da proibição do abate de cães assilvestrados – e numa concepção “bilhete-postal dos anos 30” do mundo que está para lá das portagens: nenhuma actividade económica, agrícola ou industrial ali pode ser desenvolvida que não tenhamos de imediato o problema da descaracterização. Exploração dos olivais? Descaracteriza. Exploração de lítio? Descaracteriza… E assim, cheinho de carácter, ao outrora mundo rural resta ser uma reserva de reformados, com feiras medievais e festivais gastronómicos.

3. A cereja no topo do bolo desta comunhão com a Natureza a partir do sofá da sala é a ansiedade provocada pelas alterações climáticas. Ao ver a histeria e a desinformação em torno do assunto percebe-se melhor o significado das descobertas arqueológicas agora feitas no Perú: os esqueletos de centenas de crianças executadas em sacrifícios humanos entre 1200 e 1450. Estes sacrifícios visavam acalmar os deuses cuja fúria, acreditavam os autores destas mortandades, se traduzia em inundações e outras catástrofes meteorológicas.

Hoje não se sacrificam crianças, sabe-se que o responsável por essas alterações climáticas foi o El Niño (um fenómeno  que provoca o aquecimento anormal das águas do Pacífico) mas a histeria, essa, mantém-se. Fala-se de travar as alterações climáticas ou negam-se como se tal estivesse humanamente ao nosso alcance: por exemplo, os agora comovidos com o funeral do glaciar na Gronelândia não se interrogaram sobre a data do nascimento desse mesmo glaciar? É que esse glaciar não esteve sempre lá. Aliás, foi por ele nem sempre ter existido que a Gronelândia foi povoada pelos vikings. Quero com isto dizer que as actividades humanas não intervêm no clima? Não. Mas fazer de conta que antes do aparecimento da indústria (para estas cabeças a agricultura não tem impacto ambiental) a Terra era um paraíso faz parte de um uso político do catastrofismo ambiental que tem o seu símbolo naquela fotografia de António Guterres com água pelos joelhos, num local onde as águas do mar não registam qualquer  subida.

A história das alterações climáticas é também a história de como, perante o que não controla, a humanidade acaba por vezes a virar-se contra si mesma.

P.S.: Antes que comece o coro sobre o problemas das armas nos EUA recordo que neste mesmo sábado foi morto um jovem em França e feridas oito pessoas por um homem  que empunhava uma faca. Que há semanas, em Inglaterra, um grupo de adolescentes matou com uma chave de parafusos um homem que tentou pôr fim à briga em que estavam envolvidos. Que na Alemanha um homem empurrou com as suas mãos duas mulheres e um criança para a linha do comboio, tendo a criança de oito anos morrido.  Que os ataques com ácido se multiplicam no Reino Unido:  estima-se que aconteçam 15 ataques com ácido por semana…