Eméritos sábios bem podem lamentar a ausência de uma cultura de debate em Portugal, mas quem assim pensa já deve ter-se reconciliado com a pátria graças à eterna querela do Acordo Ortográfico, que há décadas gera discussões apoplécticas sem que um único factor se tenha alterado. O Acordo Ortográfico suscita tanta polémica que já começa a atrair uma plateia inusitada: nas redes sociais, onde se escrevem versos em redondilha maior do calibre de “tão, cm é k é, tá td ou k?”, proliferam grupos que barafustam contra supostas “sujeições neo-colonialistas”.

Se a prosápia nacionalista é absurda, já não o é alertar para as consequências linguísticas do Acordo. Com ligeiras oscilações, os seus defensores têm explanado o argumentário já conhecido. Alegam que a oralidade precede a escrita; que o Acordo não se reflectirá na fonética; que a “uniformização da língua” é um instrumento diplomático fulcral para a “projecção internacional de Portugal”; e que os detractores do Acordo são reaccionários, que embirram com ele como Pessoa embirrava com a supressão do –ph. No entanto, estas premissas são dúbias ou até falaciosas. Porque as alterações na grafia influirão gradualmente na pronúncia; porque o intuito uniformizador da língua parece insinuar que as variantes locais e nacionais a empobrecem; porque línguas pujantes como o inglês nunca precisaram de acordos para, na gíria diplomática, “se projectarem internacionalmente”; e porque a supressão do –ph, apesar de contender com a tradição gráfica vigente, não fomentava incoerências lexicais como as que o Acordo Ortográfico de 90 agora introduz.

Porém, essas objecções não mereceram crédito, mesmo quando escoradas nos pareceres de instituições cujo contributo não deveria ter sido negligenciado. E o resultado foi consentâneo com os vícios do processo. Ao pretender assegurar a “uniformização da língua” sem desvirtuar as variantes nacionais, consagrou-se toda a sorte de – termo horrendo – “facultatividades”, que chegam a admitir três grafias diferentes para o mesmo vocábulo. Por outro lado, o desprezo pela etimologia e a supressão das consoantes ditas “mudas” mutilaram a ortografia; e a própria tentativa de homogeneizá-la não evita que, de país para país, subsistam diferenças de vulto quanto ao léxico e quanto à sintaxe. O que resta?…

À revelia do optimismo com que foi celebrado, a balbúrdia impera. Uns jornais opõem-se; outros adoptaram-no prematuramente; outros ainda consentem duplas grafias. Há escritores entusiastas; há escritores relapsos; há escritores agnósticos. E alguém descortina o que pensam alguns PALOP?! À luz dos objectivos primordiais, o êxito é retumbante. O Acordo Ortográfico persiste inatingível, mas este caos linguístico prova que se conseguiu, para já, uma façanha inédita: um Desacordo Heterográfico.