Nunca mais me esqueço. Faz agora precisamente quatro anos desde o momento em que, aos dezanove dias do mês de Março do ano da graça de dois mil e vinte, pelas quinze horas e trinta e sete minutos, no distrito de Lisboa, capital portuguesa, “Cidade das Sete Colinas”, antiga Olisipo, eu (segurem-se bem) estava em casa. Bom, até aqui, não há nada de surpreendente. Agora que já perderam tempo a ler esta chachada e devem estar a lamentar os quinze segundos de vida que nunca mais recuperarão, uma pergunta: em tempo de confinamento, motivado por um vírus com nome de personagem do Astérix, estavam à espera de quê?…

Percebeu-se que o caso era sério quando Bill Gates alertou que seriam “dois a três meses de shutdown completo” (e Bill Gates até nem estava em risco, porque tem antivírus). E percebeu-se que o caso seria caricato quando até o Estado Islâmico apelou aos terroristas para que evitassem viajar para a Europa, talvez precavendo a hipótese de que a imposição generalizada do teletrabalho levasse os bombistas suicidas a mandarem a própria casa pelos ares. De modo análogo, no Parlamento, o partido Chega protestou contra a libertação dos presidiários, alegando que isso iria “aumentar o caos nas nossas ruas”; mas o receio era um bocadinho infundado: mesmo que os reclusos quisessem reincidir no delito, teriam de o fazer remotamente, pelo que o mais provável seria que se dedicassem ao cibercrime.

Outros incidentes não eram intrinsecamente cómicos, mas assumiam essa feição por força das circunstâncias. A extensão aos casamentos das regras sanitárias aplicadas aos funerais parecia dar razão a quem já antes aproveitava ambas as ocasiões para manifestar os pêsames aos envolvidos; e o recrutamento dos finalistas de Medicina para prestar apoio à linha telefónica SNS24 parecia não dar razão aos pais que vêem nesse curso uma garantia de que os filhos se livrarão das agruras dos call-centers. O lançamento de um foguetão tripulado, rumo ao espaço, levava ao exagero a necessidade de distanciamento social; e, ao apedrejarem o autocarro do clube, os adeptos benfiquistas revelavam-se conscienciosos das novas regras de etiqueta respiratória, optando por agredir a sua equipa à distância, em vez de invadirem os balneários dos jogadores, como sucedera em Alcochete. E, em pleno confinamento, enquanto uns fabricavam pão caseiro e outros repetiam o enésimo trocadilho envolvendo quarentenas e quarentonas, despontou o fenómeno televisivo da temporada: o das pessoas que, habitualmente entrevistadas nos estúdios, se viram obrigadas a intervir em directo, através de videoconferência. Salvo raras excepções, o cenário de fundo que as ornamentava consistia numa estante, atulhada de livros; mas restava a dúvida: e quem prefere ler em e-books, como fazia para encenar uma aura respeitável enquanto perorava na televisão?…

A pandemia era a ilustração prática do dito efeito borboleta. Passámos, por isso, os dias seguintes à espera de que, como no poema de Eliot, Abril fosse o mês mais cruel. E a adaptarmo-nos a múltiplas alterações no mundo que até aí conhecíamos. Até ao dia 1 a.C. (antes de Covid), no prédio onde vivo, as relações entre a vizinhança resumiam-se ao aceno vago à entrada, à conversa casual no elevador e, quando alguém tocava à campainha, a ficar muito caladinho e fingir que não estava ninguém em casa; a partir do dia 1 d.C. (depois de Covid), não só se tornou implausível fingir que não estava ninguém em casa, como pareceu ter crescido uma onda de solidariedade espontânea entre os condóminos, traduzida em ajudas nas compras de supermercado e no contrabando de gel desinfectante. E que desculpa tínhamos para não atender as chamadas de telemarketing? Além disso, desde que a DGS recomendou que substituíssemos os apertos de mão e os abraços por toques de cotovelo, senti vontade de inovar nos rituais de saudação: em alternativa à forma clássica de despedida em mensagens amistosas (“tchau, um abraço”), passar a despedir-me com respeito pelas regras de etiqueta respiratória (“tchau, uma cotovelada”), mas receei que as pessoas levassem a mal e interpretassem isso como uma ameaça de agressão física.

Mesmo num contexto tão acabrunhante, houve quem tentasse encarar o drama com optimismo, exortando a que víssemos esta crise como “uma oportunidade para mudarmos de estilo de vida”. Naufragar no meio do Triângulo das Bermudas também pode ser uma oportunidade de praticar bruços; mas, se não se importam, prefiro inscrever-me na natação. E, já que se recorre a alegorias náuticas, se a pandemia teve alguma repercussão positiva, foi na contenção de um flagelo estival que há muito urgia extinguir, relacionado com essa religião civil que é a praia portuguesa. Sucedia, regra geral, quando uma pessoa estava comodamente na toalha, a desfrutar o solinho; em torno dessa pessoa, suponhamos, uns 20 metros de areal livre, sem toldos nem chapéus. Eis que chegava, entretanto, uma família desconhecida, atrelada a três putos aos guinchos, que, tendo 20 metros de areal disponíveis, escolhia pousar os tarecos a 30 centímetros da toalha de quem lá estava primeiro, deixando os restantes 19,70 metros completamente desocupados. E para quê? Não sei. Sei é que, se a reclusão em casa durasse muito mais, quem iria precisar de “achatar a curva” – a da pança – era eu.

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