Em tempos, tive um colega negro que tinha o hábito de perguntar, quando lhe bradavam “Vai para a tua terra!”, se alguém lhe dava boleia para a Buraca. A réplica tem graça; a situação não. E, dado o tempo entretanto decorrido e a irrelevância da inconfidência, julgo que não violarei nenhum dever de sigilo profissional se relatar um episódio pessoal inverso: o de portugueses, na condição de estrangeiros, vivendo no chamado “Lá Fora”.
O contexto era semelhante ao actual. Sob a Presidência de Trump, no seu primeiro mandato, o ICE (o organismo estatal que se ocupa de fiscalizar a imigração) tinha feito umas rusgas, de surpresa, em várias localidades do estado de Nova Iorque. E, no meio das rotineiras peripécias consulares, um dia surgiu o alerta. Havia uma família, de origem luso-venezuelana, cujos passaportes tinham caducado e, por motivos inexplicados, não conseguiam renová-los; o filho mais novo, ainda bebé, só detinha a nacionalidade estado-unidense, o que implicaria ser separado dos pais no caso de deportação, indo para um orfanato; e os pais, alarmados com o clima persecutório, tinham solicitado um apoio de emergência, sendo conveniente transportá-los numa viatura oficial, para que beneficiassem da imunidade diplomática e não pudessem ser detidos pelas autoridades (e também porque o carro lhes fora furtado, nove meses antes).
Residiam em Yonkers, uma localidade nos confins do Bronx, já depois do fim da linha do metro, para lá do Van Cortlandt Park. Uma daquelas terreolas americanas com uma expressiva comunidade lusodescendente: não tão numerosa quanto a de Newark, mas talvez tão concentrada quanto as de Mineola ou de Connecticut. E “numerosa” e “concentrada” são adjectivos que também se adequavam às condições do transporte, visto que o automóvel só comportava cinco passageiros e ia a abarrotar com sete (os cinco familiares e dois representantes consulares). Para cúmulo, uma das miúdas ia a ver a Ovelha Choné no telemóvel, em alta-voz; o irmão refilava com ela por estar sentada em cima do seu braço; engalfinharam-se ambos à tareia, com cotoveladas e puxões, ante as reprimendas impotentes dos pais; e, no meio do bafo estival nova-iorquino, a suar por todos os poros, o miúdo espojava-se em cima de mim, alagando a camisa branca de transpiração, já empastada de uma sujidade amarelada. Para quem secunda a noção generalizada de que a vida quotidiana de quem trabalha em postos diplomáticos consiste em frequentar beberetes finórios repletos de gente requintada, eis as más notícias: desiludam-se.
Chegados ao equivalente à câmara municipal lá do sítio, a paragem foi uma bênção, ainda que para tratar de papeladas burocráticas. O edifício tinha a aparência da típica repartição pública lusitana e o motivo da visita não era mais empolgante: assinaturas, carimbos, formulários agrafados e preenchidos com dados ininteligíveis. Durante o percurso de regresso, à boleia dos desabafos de alívio da mãe, a conversa fluiu. Segundo contava, tinham emigrado (de uma povoação perto de Aveiro) oito anos antes, com a promessa de que o empregador num restaurante, também português, lhes desbloquearia os entraves jurídicos para a respectiva legalização – coisa que nunca fizera. Mesmo distando cerca de 45 minutos de automóvel e, além disso, com comboio directo para o centro da cidade, só lá tinham ido uma única vez, para assistir a um concerto de Mariza, findo o qual deram uma voltinha em Times Square, espantaram-se muito com as luzes e, depois, foram-se embora para casa, com receio de se perderem durante a noite. Cada vez mais condoído, impôs-se a pergunta de saber quando planeavam regressar a Portugal, que mereceu uma resposta pronta: «- Por mim, era já amanhã!» E a casa? Nem haveria preparativos, rendas a cumprir, objectos a embalar, despedidas a fazer? Com um resoluto encolher de ombros, chegou a explicação: «- A casa fica para trás…»
E foi a partir dessa experiência ambulante, ao lidar diariamente com tantos casos de gente desamparada num país ignoto, que passei a achar ainda menos graça às larachas preconceituosas, nascidas da arrogância ufana do privilégio, que habitualmente se contam sobre os migrantes. A moral da história? Nunca se esqueçam disto: os “estrangeiros” dos outros somos nós.