Somos todos estranhos na cidade. A cidade define-se como a convivência de estranhos e ela é tão dinâmica que mesmo aqueles que nascem na cidade têm de aceitar conviver com o facto de não se reconhecerem na sua própria cidade ou em partes dela. A contraparte deste estranhamento é a capacidade de ‘antropofagia cultural’ de cada cultura. Ou seja, a vontade de ver o ‘outro’ (a sua comida, a sua maneira de estar ou viver, por exemplo) como parte de nós. Dessa capacidade antropofágica resulta a maior ou menor integração dos ‘outros’ na sociedade portuguesa.
A cidade, enquanto criação recente (com cerca apenas de 10.000 anos), deve ser entendida como um produto humano cujo programa é o da ultrapassagem de uma sociedade de famílias. Ou seja, a passagem de uma sociedade sustentada no parentesco para uma sociedade que se define como uma agregação de estranhos. Ora, apesar de sabermos que a cidade é um produto frágil, este programa de convivialidade entre estranhos é tendencialmente crescente fazendo, em última análise, coincidir a cidade e o mundo. Assim, as cidades incluirão, mais cedo do que tarde, o mundo. E devemos estar preparados para isso. A consciência de que a cidade e o mundo estão ligados é muito antiga. Desde a cidade-torre de Babel, todas as grandes cidades se tornaram cidades-espelho do mundo conhecido (ecumene). E quando o mundo conhecido começou a assemelhar-se ao planeta, as cidades foram tornando-se cidades-mundo: Veneza; Lisboa; Sevilha; Amsterdão; Londres; Nova York…Pequim. No presente existe mesmo uma consciência de que as cidades, ou parte delas, espelham a fragmentação e as lutas do mundo. Uns referem que evidenciam as desigualdades e as lutas entre um Sul Global e um Norte Global numa cidade dual, enquanto outros evidenciaram que a dualidade é uma simplificação e é antes a fragmentação urbana o espelho do mundo: a cidade do luxo, a cidade gentrificada, a cidade abandonada, a cidade degradada (do ‘slum’), a cidade suburbana, a cidade étnica…(Peter Marcuse). A cidade fragmentada é, ao mesmo tempo, uma cidade explodida e uma cidade implodida, ou seja, em que tais fragmentos, tanto se dispersam quanto, pela sua proximidade, se confrontam criando problemas.
Vem tudo isto a propósito da Mouraria e ainda em relação aos eventos da Rua do Benformoso e das consequências em catadupa. O tempo das redes sociais (as fotografias e vídeos) aceleram o tempo dos media e da política e, infelizmente, acabam por evitar, muitas vezes, um tempo de reflexividade e de ciência. Mas se há uma relação direta entre os media e a política, também é cada vez mais necessário estabelecer uma relação de espaço público de ciência sustentada na informação dos media.
As cidades-mundo tudo juntam (‘o mundo numa cidade’) mas, mesmo as demais cidades (como Lisboa) têm zonas que tudo juntam. É o caso da zona envolvente à Rua do Benformoso. A reportagem da SIC ‘Afinal o que se passa na Mouraria?’ é um argumento para esta hipótese e seria uma óptima base para um fórum científico a fazer no espaço mediático. Imigrantes estabelecidos há muitos anos com os seus negócios estão paredes-meias com imigrantes acabados de chegar amontoados em beliches em lojas antes devolutas. Traficantes e consumidores de crack, prostituição e furtos, co-habitam com turistas, que chegam para usufruir de airbnb (fruto de investidores urbanos), e habitantes estrangeiros que vivem em casas com valores de mais de 6.000€/m2. Evidências de uma recuperação/reabilitação urbanas convivem com a falta de resiliência de tal projeto e os abandonos daí decorrentes. Os lixos evidenciam esta micro-fragmentação e esta mistura: lixos domésticos e da restauração juntam-se a seringas e preservativos…
Em suma, estamos perante o que se denomina ‘zonas de contactos’ em que vários ‘fragmentos’ urbanos e do mundo se juntam: por um lado, o bairro degradado e abandonado confronta a especulação imobiliária, o investimento e a reabilitação urbanas, a gentrificação; por outro lado, a expansão do centro procurando incluir (e bem) aquele território (a instalação mesmo do presidente António Costa num gabinete no Intendente) confronta a evidência da falta de resiliência de tal projecto, da sua ineficácia; por outro lado ainda, a cidade turística confronta a cidade do risco fazendo do livro do Rui Zink ‘Destino Turístico’ uma profecia; os fluxos humanos das Índias orientais confrontam os fluxos de estupefacientes vindos da Índias ocidentais; vidas de migrantes estabelecidos cruzam-se com vidas precárias dominadas pelas drogas, prostituição e furtos; migrantes recém-chegados movidos pela utopia confrontam todas estas realidades difíceis…. Nestas várias zonas de contacto quase todos os jogos parecem ser de soma negativa. Não é certo que alguém esteja a ganhar com o que se passa na Mouraria apesar de todos os projectos BIP/ZIP desde 2011. E a cidade perde no seu objectivo maior de convivência entre culturas.
Portanto, transformar a questão da Rua do Benformoso e da Mouraria numa questão de polícias e migrantes parece-se um pouco com as nossas brincadeiras de crianças, quando brincávamos aos índios e cowboys. O problema é muito maior. Tal não nos deve impedir de todo de abordar a questão dos imigrantes. No início do século XX, a questão dos imigrantes levou a análise de bairros étnicos e suas ecologias, estudos de comunidades e subculturas por um lado (Escola de Chicago) e, por outro lado, a uma distinção entre o ‘estrangeiro próximo’ e o ‘estrangeiro distante’ (Simmel). Já no século XXI, na senda dos primeiros tipos de estudos, por exemplo em Inglaterra, a análise de comunidades de imigrantes do Industão revelava a diferença de integração entre as várias nacionalidades e as necessidades em investimento público: habitação pública por exemplo. Já a segunda linha de pensamento, implica que cada cultura se prepare para a passagem do paradigma do estrangeiro próximo (aquele que reconhecemos por razões várias) para o paradigma do estrangeiro distante (aquele que até há pouco tempo não existia de todo no nosso quadro mental). A passagem de um paradigma para o outro é um desafio para a política cultural, para os media, para a ciência social. E também para a ordem urbana: entendida duplamente como urbanismo e papel das polícias. É a ‘superdiversidade’ que se impõe e à qual é preciso reagir pela análise e políticas públicas.
O conceito de ‘superdiversidade’, introduzido em 2007 por Vertovec, surge para dar conta das novas demografias da imigração no Reino Unido e a passagem para um paradigma da cidade do estrangeiro distante e ‘uma diversificação da diversidade’ (novos imigrantes, de origem múltipla e dispersa, com ligações transnacionais, socioeconomicamente diferenciados e legalmente estratificados) que cria novas e plurais interacções (por exemplo pelas economias de plataforma) dando origem também a uma complexidade de percepções e ‘reacções à diversidade’. É tudo isto que, para o autor, implicava novas análises e novas políticas. E também assim é no caso português.
Uma política cultural urbana é aqui fundamental. Os media têm um papel relevante, combatendo preconceitos, juízos de valor e falsas percepções. Alguns programas como ‘O homem que comia tudo’ fazem muito por esta convivialidade entre culturas. E tal como temos o programa ‘Portugueses no mundo’, dava jeito ter um programa intitulado ‘Do mundo para Portugal’, promovendo os inúmeros casos de sucesso de estrangeiros em Portugal. Todo o potencial também das indústrias culturais e criativas (gastronomia, eventos religiosos, feiras e festivais; artes e artesanato, música, etc.) deve ser activado e suportar um planeamento cultural para o contacto entre culturas que possibilite jogos de soma positiva. Ao nível do urbanismo é provável que tenhamos que instituir a lógica do aeroporto enquanto modelo de gestão da superdiversidade. Esse, de qualquer forma, é um caminho que deve ser feito, de análise e de política, de forma a sairmos das posições maniqueístas sem saída em que nos envolvemos nos últimos tempos e que são apenas mais um jogo de soma negativa.