Antes de mais, sejamos claros, o fascismo e todos os sistemas totalitários são a negação absoluta da dignidade humana e não admitem normalização. O que me traz aqui hoje não é o branqueamento do passado, mas um alerta urgente sobre o presente. Vivemos numa sociedade onde o pensamento crítico foi substituído pelo ‘clique’ fácil e onde a conveniência mediática prefere o ruído do insulto à clareza do argumento. Ao assistirmos ao inundar de uma narrativa onde qualquer divergência à direita é carimbada como o mal absoluto, estamos a trair a própria democracia que dizemos defender. Não se protege a liberdade esvaziando as palavras do seu peso real; protege-se a liberdade exigindo que o debate regresse à honestidade intelectual.

Na política portuguesa contemporânea, assistimos a um fenómeno tão curioso quanto perigoso: a inflação do rótulo “fascista”. Vivemos num tempo onde, quanto mais nos distanciamos historicamente do regime de Salazar, mais o termo é evocado para silenciar o presente. O que outrora foi uma descrição rigorosa de um sistema opressor transformou-se numa ferramenta de fascismo de conveniência, uma estratégia retórica desenhada para isolar o adversário e expulsá-lo da moldura democrática.

A lição esquecida de Sá Carneiro

Para compreendermos o presente, precisamos de curar a nossa amnésia coletiva. Francisco Sá Carneiro, hoje unanimemente celebrado como o pai da nossa democracia liberal, foi, no calor do PREC, alvo de uma perseguição mediática implacável. Chamaram-lhe “reacionário” e “fascista” simplesmente por defender uma democracia de matriz europeia e recusar a tutela militar ou comunista. O mesmo “carimbo” foi aplicado mais tarde a Cavaco Silva, sob o pretexto de um suposto “autoritarismo”.

O padrão é sistemático: sempre que uma figura de direita ou centro-direita ameaça a hegemonia da narrativa instalada, o rótulo é sacado do bolso como um passe de mágica. Não se trata de uma análise política, mas de uma interdição de pensamento.

A banalização e o ruído mediático

É aqui que entra o conceito de Hannah Arendt sobre a “Banalização do Mal”, mas aplicado à nossa saturação comunicacional. Não se trata de desvalorizar o horror do fascismo real, mas sim de alertar para o facto de que, ao chamarmos “fascismo” a tudo o que nos desagrada, do mercado livre à autoridade policial, estamos a esvaziar a palavra de sentido.

Assistimos hoje a um inundar constante de negatividade onde “tudo o que vem da direita é mau”. Esta narrativa conta com a conveniência de largos setores dos órgãos de comunicação social, que preferem o espetáculo do rótulo inflamado ao debate sério de ideias. Ao transformar a divergência em crime moral, os media e a esquerda política criam um “lobo” que, de tanto ser invocado sem razão, deixará de assustar quando realmente aparecer. Se tudo é fascismo, nada o é.

O peso jurídico e o Cordon Sanitaire

Não podemos esquecer que, em Portugal, chamar “fascista” a alguém não é um insulto qualquer. A nossa Constituição, no seu Artigo 46.º, n.º 4, proíbe expressamente organizações fascistas. Logo, ao rotular um partido ou um político desta forma, o acusador está a fazer mais do que uma crítica: está a sugerir a sua inconstitucionalidade e a sua morte civil. É uma tentativa de linchamento verbal que visa substituir o voto popular pelo cancelamento jurídico.

A Democracia não é um monólogo

A democracia é, por definição, o espaço do confronto e da pluralidade. Usar armas de arremesso político para isolar um adversário não é uma estratégia democrática; é um sintoma de fraqueza intelectual.

Sá Carneiro sobreviveu aos rótulos porque as suas ideias eram maiores do que as etiquetas que lhe colaram. O desafio de hoje é exigir que o debate regresse aos factos. É tempo de abandonar o “fascismo de conveniência” e aceitar que o contraditório não é um perigo a abater, mas a prova de que a nossa liberdade ainda respira. A democracia exige argumentos, não sentenças sumárias.

É imperativo resgatar a honestidade do debate e a precisão das palavras. Se continuarmos a usar a história como um martelo para esmagar qualquer divergência, acabaremos por acordar num país intelectualmente deserto. Afinal, convém não esquecer: quando tudo passa a ser fascismo, nada o é.