Todos os verões regressa a mesma liturgia: o país em chamas. O noticiário abre com  imagens de serras a arder, bombeiros exaustos, populações em fuga. E, invariavelmente, a  mancha ardida é quase sempre a mesma: distritos como Bragança, Viseu, Guarda e  Coimbra, mas também Castelo Branco, Vila Real ou Leiria. Ano após ano, o mapa pinta-se  a vermelho no interior do país. E sei-o bem, pois enquanto escrevo as chamas avançam já  no meu distrito e ameaçam o meu concelho. O pensamento é imediato nas vidas em risco,  nas famílias em sobressalto, nos animais indefesos, tudo o que levou décadas a construir  e pode desaparecer em horas.

Foi também neste país em chamas que uma jornalista, em espaço público, descreveu o  interior como “abandonado, envelhecido, sem esperança, pobre, isolado, com problemas  de saúde mental”. Talvez não tenha medido o peso das palavras. Mas a frase soou como  sentença, como se o interior fosse apenas o retrato de uma decadência inevitável ou um  catálogo de fragilidades. É grave. Muito grave. Porque não é apenas uma opinião infeliz, é  um preconceito declarado. É reduzir comunidades inteiras a um estereótipo, pintar 80% do  nosso território nacional como um espaço condenado, povoado por coitadinhos,  provincianos ou parolos à espera da compaixão dos outros. É uma visão injusta e perigosa,  que não descreve a realidade e serve somente para reforçar a divisão entre o litoral e o  resto.

E o que mais custa não é ouvir falar dos problemas, porque eles existem e são sérios, é  transformá-los num mero rótulo. Os problemas do interior não são as suas gentes, são as  escolhas que foram feitas. Décadas de centralismo a canalizar recursos para o litoral  criaram dois países dentro do mesmo mapa: um litoral sobrelotado e um interior esvaziado,  onde os serviços foram fechando e as pessoas, naturalmente, foram saindo por falta de  oportunidades. Ficaram os mais idosos, terrenos ao abandono, campos por cultivar. E onde  não há gente, cresce o mato, onde cresce o mato, o fogo encontra caminho.

É por isso que todos os verões o interior arde. A orografia difícil, o território fragmentado e  despovoado, tudo se combina para tornar estas terras vulneráveis. Mas o interior não é  apenas fragilidade. É recurso estratégico. Aqui estão a floresta e a agricultura, a água que  alimenta barragens e cidades, a energia renovável, os solos férteis e o espaço que o litoral  já não tem. Aqui está a resposta para a coesão territorial, para a sustentabilidade, para a

qualidade de vida que as cidades esgotadas já não oferecem. Porque se o litoral já não tem  espaço para crescer, é no interior que Portugal pode encontrar o seu equilíbrio.

O fogo expõe, de forma cruel, a verdade que o país ignora: sem pessoas não há território e  sem interior não há país inteiro.

O interior chama. Não para pedir clemência, mas para exigir respeito. Para lembrar que  Portugal não pode viver de costas voltadas a si mesmo. E se não respondermos, não será  apenas a floresta a desaparecer em cinzas, será também uma parte de quem somos.