“[…] não desanimemos, voltemos ao anúncio desta noite: ainda que estejamos nas trevas, a luz brilha lentamente; aguarda-nos a esperança de uma vida nova e de um mundo finalmente libertado; um novo começo pode surpreender-nos, mesmo que às vezes pareça impossível, porque Cristo venceu a morte.” (Papa Francisco, Homilia da Vigília Pascal 2025)
Terminou, na Oitava da Páscoa, a caminhada terrena do nosso amado Papa Francisco.
Recebi a notícia enquanto me preparava para sair da minha residência durante a Semana Santa, junto à Praça de São Pedro. Pelas 10h, caiu no WhatsApp a mensagem:
“Morreu o Papa Francisco”,
e, por momentos, pareceu que o chão do quarto me fugia dos pés e que o mundo dava voltas em direcção ao abismo.
Morreu o nosso amado Papa Francisco, o meu amado Papa Francisco, e, no meio da confusão estranha entre tristeza e alegria que me invade o coração, é difícil ainda processar o que vivi nos últimos dias e nas últimas horas.
Estar em Roma durante a Semana Santa é ter a possibilidade de testemunhar em primeira mão a vitória de Cristo sobre a morte através dos frutos de beleza que produziu, da majestade da Sua Santa Igreja, da riqueza da Liturgia. Renova-se o amor a Nosso Senhor e cresce, de forma particular, o amor ao Santo Padre.
Nestes dias de do Papa não meramente se gosta ou se aprecia, mas ama-se:corrupio romano, encontrei o Papa Francisco por duas ocasiões: uma primeira, na Basílica de São Pedro, por entre um silêncio orante que aguardava o início da Vigília Pascal e no qual o Santo Padre pareceu querer tomar parte; e, depois, na Basílica de São Pedro, quando o Servo dos Servos de Deus, no Domingo de Páscoa, quis entregar-se aos seus até ao fim.
Em ambas as ocasiões, encontrei um homem envelhecido, inchado, doente, ofegante, cansado, magoado pela dor, dorido pelas mazelas da fraqueza humana. Neste cenário que parece ser miséria e derrota, descobri, na verdade, precisamente o contrário. Francisco foi, até ao fim, imagem de Cristo Ressuscitado que – não fugindo do sofrimento, mas abraçando-o – mostrou às suas ovelhas o verdadeiro caminho da vida nova.
Por isso, é muito apropriado e, acima de tudo, uma misteriosa graça que a morte do Vigário de Cristo se tenha desenrolado assim: depois de se doar aos seus, depois do sofrimento e das lágrimas, depois de um breve descanso, chegou o dia da Ressurreição e, com ele, a Páscoa eterna.
O Papa deve confirmar os seus irmãos na Fé e, deste grandioso modo, foi isso que o Papa fez até ao último segundo da sua vida, carne na carne, amor dado, ensinando que as nossas misérias são muitas, mas que Jesus pode mais. No Jubileu da Esperança, ele foi, de certo modo, sinal da nossa esperança – apesar da fragilidade e da morte, ressurge sempre essa Esperança contra toda a esperança, há Alguém que nos sustenta e que nos aguarda, há uma Páscoa maior que esta que vivemos neste mundo.
Entretanto, já entrou lestamente em cena o rol de comentadores que elogia o Papa como se se tratasse de um mero ideólogo ou activista. Ignoram o principal: Francisco marcou tantos não por ser apenas Francisco ou por ter bonitas ideias, mas porque amava Cristo. Enfim, Francisco foi Pedro e, como Pedro e nas suas palavras, um pobre pecador, mas loucamente apaixonado por Jesus.
A sua mensagem de misericórdia veio directamente do coração de Deus. Chamou-nos ao sacramento da Confissão porque do outro lado do confessionário nos espera o próprio Senhor. O seu amor a Cristo fez brotar o amor aos outros, e em especial aos mais frágeis. A sua preocupação com os migrantes nasceu da sua paixão pelo Menino Jesus, exilado e estrangeiro noutra terra. Sabendo que a criação proveio de um Criador, ensinou-nos a respeitar o que nos fora entregue. Clamou pela paz por ser administrador em nome do Rei da Paz.
Dirão alguns que nada disto é mensagem nova nem doutrina germinada do nada; mas, afinal, não é essa parte da missão de cada Papa ao longo dos séculos: trazer à luz um ou outro aspecto da Revelação Divina que considere mais necessário aos cristãos e ao mundo de cada tempo? Assim, com Francisco, fomos lembrados que a identidade de
Deus é misericórdia, que essa Misericórdia nos conhece pessoalmente, que nos chama pelo nome, que nos impele a cada um e a todos a calçar as botas e a sair do sofá, a converter-se, a mudar de vida. O Papa veio do fim do mundo para nos dizer que há no coração de Deus uma morada para mim e para ti: Cristo clama por todos, todos somos chamados a Cristo, e em todos há um Cristo.
De modo particular, o Papa Francisco chamou também por mim, para que a pouco e pouco o amasse mais no seu ministério, para que confiasse no Espírito Santo que o sustentou e que sustém a Santa Igreja. Foi neste processo que fiz do Papa o meu Papa: não por ser mais ou menos do meu agrado, mas pela cátedra que ocupa – e onde está Pedro, aí está a Igreja, aí está Deus.
Obrigado, Papa Francisco, por, depois de tantos anos, me ter feito amar mais o Papa, a Igreja e, afinal, a Cristo Nosso Senhor.
Muitas vezes falei de amor nestas linhas. Meço bem as palavras: entre dias de sol e de tempestade, Francisco ensinou a este pobre homónimo que do Papa não meramente se gosta ou se aprecia, mas ama-se: ama-se, como se ama a Santa Igreja; ama-se, porque de Cristo é Vigário; ama-se, não por ser João Paulo, Bento ou Francisco, mas precisamente por ser Pedro.
E reza-se, reza-se muito.
Por isso, este Francisco, aqui nesta terra, reza para que o amado Papa Francisco já tenha alcançado a Alegria eterna, para que junto do Pai interceda por estes seus filhos e pela Igreja que amou e serviu, e para que auxilie o próximo Bispo de Roma que ocupará a sé agora vacante.
Volto aos últimos momentos da sua vida e penso que, quando todos os nossos dias já estiverem contados, só restará Cristo. No ocaso da vida, talvez não brilhasse nada de Bergoglio, o grande cardeal, ou de Francisco, o Papa que movia multidões e corações cépticos, mas sobressaía Cristo, crucificado, morto e, finalmente, ressuscitado. É Ele a nossa esperança. Será essa imagem de fidelidade que guardarei para sempre.
Até ao Céu, Papa Francisco, bom pastor do rebanho do Senhor. Rogo ao Bom Deus para que, depois deste vale de lágrimas, já se encontre nos braços da Virgem Mãe que sempre amou, lado a lado com São José, face a face com o Amor misericordioso pelo qual viveu e se gastou.