Poucos mitos são tão convenientes para a classe política portuguesa como este: “pagamos mal, logo não conseguimos atrair qualidade”. Repete-se como desculpa, como se o país estivesse condenado a escolher entre pagar salários milionários ou contentar-se com carreiras medíocres e políticos de segunda linha. É uma narrativa que absolve responsabilidades, que mascara vícios de recrutamento partidário e que até serve de justificação para a perpetuação de figuras de baixa qualidade — algumas com processos judiciais — a ocuparem cargos de topo. Mas essa explicação é falsa. E pior: é intelectualmente desonesta.

Portugal é uma economia pequena e de rendimentos médios, e o debate deve ser feito em termos relativos: quanto ganham os nossos políticos em comparação com o salário médio nacional e com os seus pares noutros países da Zona Euro? E quanto ganham em contraste com o setor privado de topo?

O primeiro-ministro português recebe cerca de 105 mil euros por ano, mais de 4,4 vezes o salário médio nacional (cerca de 23,7 mil euros, segundo dados da EURES/Eurostat 2023). Em Espanha, o chefe do governo recebe menos — cerca de 93 mil euros, apenas 2,9 vezes o salário médio espanhol (32,3 mil euros, de acordo com a OECD 2024). Em Itália, o valor é ainda mais baixo: 80 mil euros, ou 2,4 vezes o salário médio italiano (Economy Magazine, 2022). Na Alemanha, a chanceler recebe 348 mil euros, ou 7 vezes o salário médio alemão (Focus.de, 2024). Em França, o primeiro-ministro recebe 192 mil euros, cerca de 4,6 vezes o salário médio (BFMTV / Europe1). Nos Países Baixos, o equivalente recebe 206 mil euros, cerca de 3,5 vezes a média (Rijksoverheid, 2025). A conclusão é simples: Portugal não está abaixo dos pares. Pelo contrário, paga relativamente mais do que Espanha, Itália e até os Países Baixos, e está praticamente em linha com a França.

Quando passamos para a comparação com o setor privado, a história torna-se ainda mais clara. Em Portugal, o salário médio dos CEO das empresas do PSI ronda 1,44 milhões de euros anuais (ECO, 2023). Em Espanha, no IBEX-35, a média ronda os 4,4 milhões (Economía Digital, 2023). No CAC-40 francês, os CEO recebem em média 7,1 milhões (Phitrust, 2024). No DAX-40 alemão, a média é 5,7 milhões (TUM/DSW, 2023). A distância entre o público e o privado é gigantesca em qualquer país europeu.

Mas a diferença que interessa discutir está no teto remuneratório dos gestores públicos. Em Portugal, esse teto é fixado em torno do salário do primeiro-ministro — cerca de 105 mil euros por ano (DGAEP/SEE). Isto significa que o máximo que um gestor público pode auferir representa aproximadamente 7% do salário médio de um CEO do PSI. Em Espanha, um gestor público pode ultrapassar facilmente os 150 mil euros anuais, mas os CEO do IBEX-35 recebem em média 4,4 milhões, o que coloca o teto público abaixo de 4% do valor privado. Em Itália, a diferença é ainda maior: cerca de 80 mil euros de referência contra 4,2 milhões no privado, menos de 2%. Em França, mesmo com o limite de 450 mil euros para empresas estatais, este valor equivale apenas a6% do salário médio de um CEO do CAC-40. Na Alemanha, sem teto legal uniforme, a chanceler ganha 348 mil euros, e os CEO do DAX-40 recebem em média 5,7 milhões — o equivalente a 6%. Já nos Países Baixos, o limite legal para gestores públicos é de 246 mil euros, face a CEO que rondam os 6 milhões, ou seja, 4%.

Em resumo: o teto dos gestores públicos está relativamente mais próximo do setor privado do que em Espanha, Itália ou França, sendo apenas comparável ao caso alemão. Em Portugal todos ganhamos pouco, mas o mito de que “pagamos mal” esconde a realidade: a política e a gestão pública portuguesas são, proporcionalmente, mais bem pagas face ao setor privado do que nos grandes países da Zona Euro. É mais fácil culpar o ordenado. Mas é mais sério reconhecer que o problema não está no salário: está na forma como escolhemos quem lá chega.