Há momentos na vida política em que o silêncio se torna insuportável. Não por vaidade, mas por consciência. Não por ressentimento, mas por fidelidade – não a pessoas, nem sequer a partidos, mas àquela exigente e solitária ideia de coerência que nos atormenta quando nos deitamos. Não há dignidade possível quando o desconforto se normaliza, quando a convicção é tolerada como excentricidade, e o compromisso com os princípios se torna um embaraço para a estratégia.
Recentemente, fui confrontado com essa encruzilhada: o dilema entre manter um cargo ou honrar um valor. E, como outros antes de mim, percebi que às vezes a única forma de permanecer inteiro é sair. Foi uma decisão difícil, mas não amargurada. Apenas lúcida.
Na política portuguesa, há uma altura particularmente fértil para estas decisões: o momento em que se elaboram listas de candidatos às legislativas. É aí, nessa alquimia entre os interesses internos e os cálculos de viabilidade, que o verniz estala. O militante é lembrado de que, para o aparelho, há sempre os imprescindíveis e os dispensáveis. Uns ocupam lugares. Outros, caso persistam em pensar, são convidados a passar. Com elegância, claro. Com todas as fórmulas da urbanidade democrática. Mas sempre com aquela frieza de quem já decidiu há muito quem conta e quem pesa.
É nesta altura do calendário que ocorrem demissões, recuos, silêncios públicos e indignações. Mas há quem, nesse instante de tensão moral, recuse o silêncio. E há quem o faça com a altivez de quem nunca abdicou de pensar pela sua cabeça. Um desses homens é Sérgio Sousa Pinto.
A sua saída das listas do Partido Socialista foi tudo menos um gesto impulsivo. Foi um ato de consciência – talvez o último luxo que resta aos que ainda se recusam a transformar a política numa carreira feita de sorrisos obrigatórios e lealdades acríticas. Disse-o com elegância e gravidade: “A dado momento, uma pessoa sente que está a mais, que é tolerada, e não desejada.” Disse-o com a tristeza de quem sabe que, mais do que o seu lugar na lista, o que se perdeu foi o lugar da dissidência pensante no seio do seu partido.
Sérgio Sousa Pinto não foi um deputado decorativo. Foi, talvez, um dos últimos parlamentares com verdadeira cultura política, com referências históricas que não se limitam à cartilha. Falava com a coragem de quem conhecia o país, e com a liberdade de quem nunca precisou de um lugar para ser ouvido. Em cada intervenção, havia uma memória viva da democracia, uma linha de continuidade com os tempos em que se discutia política em cafés, e não nos gabinetes de comunicação.
A política precisa de gente que diga não. Precisa de homens e mulheres que recusem os lugares quando esses lugares já não servem para dizer o que deve ser dito. Precisa de deputados que não confundam disciplina partidária com subserviência ideológica. Precisa, em suma, de políticos como Sérgio Sousa Pinto.
A democracia portuguesa fica mais pobre sem a sua voz no Parlamento. Mas a sua saída foi uma lição. Uma lição de carácter, de verticalidade, de integridade intelectual. Uma lição que muitos dos que ficam, agarrados ao cargo como náufragos a uma bóia, fariam bem em estudar.
Obrigado, Sérgio Sousa Pinto. Pela clareza. Pela coragem. E por lembrar aos que ainda acreditam na política como ato de liberdade que, às vezes, a única forma de resistir é sair.