Ponto prévio: esta história é uma ficção. Não constará nos livros de História de França nem nos arquivos da culinária clássica, mas como muitas boas histórias serve para ilustrar uma verdade maior — sobre o que escolhemos ver, provar e pensar no mundo de hoje.
Na França do século XVIII, em pleno auge da revolução gastronómica, um nobre abastado e bom garfo tinha ao seu serviço um cozinheiro extraordinário. Não foi por acaso. Chegaram um ao outro depois de um longo caminho: o cozinheiro aprendera com os melhores mestres, aprimorando o ofício ao longo de anos de dedicação e estudo, e o nobre investira tempo e recursos consideráveis para o contratar. Era um luxo. Um luxo caro. E, por isso mesmo, esperava-se dele excelência, precisão e resultado.
O cozinheiro, conhecedor dos segredos que transformavam ingredientes simples em iguarias sublimes, sabia agradar. Mas havia nele um receio silencioso — o medo de desagradar ao seu amo. Para garantir o sucesso e justificar o investimento, fazia o que parecia mais seguro: preparava-lhe, dia após dia, apenas pratos que sabia que ele adorava. Uma ligeira variação aqui, um leve tempero extra ali, mas sempre dentro do conforto do paladar já aprovado.
O nobre, satisfeito mas inconsciente, foi-se habituando ao previsível. E, sem o saber, passou ao lado de novas descobertas — receitas inovadoras que por aqueles tempos iam sendo criadas no país, combinações ousadas, experiências que podiam ter-lhe ampliado o gosto e dado mais mundo sem sair da sua Borgonha natal.
Diz-se que nunca chegou a provar uma bouillabaisse fumegante de Marselha, uma cassoulet robusta do sudoeste ou um ratatouille vibrante da Provença. Estes pratos estavam no auge da criatividade culinária francesa daquele tempo, mas não chegaram à sua mesa — e não por falta de acesso, mas por excesso de previsibilidade.
Hoje, somos todos um pouco esse nobre.
Os algoritmos que nos rodeiam — nas redes sociais, nos motores de pesquisa, nas plataformas de vídeo ou de compras — são como o cozinheiro zeloso. Alimentam-nos com o que sabem que vamos gostar. Mostram-nos vídeos que nos fazem rir da mesma maneira, artigos que confirmam o que já acreditamos, músicas que nos soam familiares, produtos que parecem saídos do nosso histórico de desejos.
É confortável. É eficaz. E é perigosamente limitado.
Este “paladar digital” moldado por algoritmos fecha-nos numa bolha invisível. As redes sociais tornam-se câmaras de eco. As recomendações reforçam gostos e crenças existentes. A surpresa, a dissonância, o contraditório — tudo aquilo que desafia e expande a mente — vai desaparecendo da mesa.
Tal como o nobre deixou de provar o novo por causa da previsibilidade confortável do seu cozinheiro, também nós arriscamos perder a diversidade do mundo, afogados em conteúdos que
nos agradam, mas não nos confrontam. E como ele, talvez nem nos apercebamos do que estamos a perder.
Claro que o problema não está apenas nos algoritmos. Está, arrisco dizer, sobretudo em nós. Fomos nós que delegámos neles a curadoria do nosso tempo, atenção e pensamento. Fomos nós que os treinámos a agradar-nos. Mas, como em qualquer relação entre amo e cozinheiro, há espaço para mudar a ementa.
Podemos pedir surpresa. Podemos clicar fora da nossa bolha, ler quem discorda, ouvir sons que nos desafiam, consumir ideias que nos desconfortam. Podemos, no fundo, reeducar o nosso gosto — e com isso, alargar o nosso mundo.
Se a cozinha francesa brilhou foi porque ousou. Provavelmente a nossa mente precisa do mesmo: menos conforto, mais descoberta, mesmo que, por vezes, o prato não nos saiba bem à primeira. Talvez este nobre nunca tenha existido. Mas talvez sejamos todos ele, um pouco, todos os dias.