Estamos a viver uma “mentira”! Um dos paradoxos mais famosos é o de Epiménides. Ele disse: “Todos os cretenses são mentirosos”, sendo ele mesmo um cretense. Ora, se todos os cretenses são mentirosos, será que ele está a falar a verdade? E, se estiver, a sua afirmação já não será correta, pois ele não estaria a dizer uma mentira. Confuso?

Tentemos simplificar com o nosso caso. As televisões generalistas, como Epiménides, “nos dizem” todos os dias que estão agora com muito mais audiência. Ora, se têm mais audiência é porque os portugueses gostam daquilo que oferecem. Será verdade? Apesar de existirem muito mais pessoas a ver televisão, vivemos um período em que a oferta dos conteúdos está francamente mais pobre. É nesse paradoxo da “mentira” que reside esta proposta.

O consumo televisivo tem batido recordes atrás de recordes nestas duas últimas semanas. Os conteúdos de vídeo tornaram-se numa das principais alternativas de entretenimento dos portugueses e de suas famílias em tempos da Covid-19. Contudo, ironicamente, as televisões generalistas em Portugal (e não só) estão a enfrentar essa enorme contradição: são incapazes de satisfazer a procura com um produto de melhor qualidade.

Fonte: Dados GFK – Software Marktest

Neste momento, os portugueses encontram praticamente tudo o que possa servir de distração e entretenimento fechado: cinemas, teatros, parques, museus etc. De forma natural e inevitável, a televisão volta a ser vista por muitos, mas sobretudo por aqueles que dela se tinham divorciado, como uma fonte de entretenimento. Essa procura acontece não só pela óbvia necessidade de informação sobre a Pandemia, mas também como forma de “passar o tempo” num confinamento obrigatório para todos.

Ora, como é que os canais respondem a essa grande oportunidade que se lhes apresenta? Não da forma como os responsáveis e muitos profissionais do meio gostariam. As televisões, sobretudo as generalistas, devido aos seus inerentes processos de produção, vêem-se obrigadas a cortar programas, aligeirar conteúdos, suspender formatos… Tudo isto com um custo altíssimo para a sua imagem, uma vez que existem mais olhos do que nunca a assistir aquilo que se passa nos ecrãs.

Os gráficos apresentados retratam bem a explosão do consumo televisivo com a chegada do “Estado de Emergência” em Portugal. No primeiro (acima), no período “pós Covid-19”, ou seja, de 14 a 26 de Março, uma média de quase 2,8 milhões de portugueses assistiram televisão! Ora, no período anterior à Pandemia, de 1 a 13 de Março, esse número foi de 2 milhões. Ou seja, quase um milhão de “novos” espectadores no mercado televisivo!

Fonte: Dados GFK – Software Marktest

Neste segundo gráfico, a expansão do consumo traduz-se em tempo. Se em Março de 2019 cada português assistiu em média a 4 horas e 47 minutos de televisão, com o confinamento esse valor subiu para mais de 7 horas! As pessoas estão a ver uma média de sete horas diárias de televisão. Um valor absolutamente impensável e fora de toda a regra.

A televisão voltou a ter a força de outrora. É evidente que esse aumento de consumo acontece em várias plataformas (Cabo, Streamming, Apps etc.). Mas concentremo-nos nas televisões generalistas. Até porque, como veremos, também estas apresentam uma subida considerável de audiência.

Todavia, e curiosamente, esse aumento acontece motivado por fatores exógenos. O consumo deveria aumentar impulsionado pela melhoria da oferta. Elementar. Mas não é o que acontece. De facto, a luta das FTA’s (Free To Air) nos últimos anos tem sido sempre por aprimorar os seus conteúdos e aumentar a sua relevância. Depois de um longo período de retração, o mercado parecia finalmente dar sinais de alguma vitalidade e recuperação sustentável no arranque deste 2020.

Fonte: Dados GFK – Software Marktest

E eis que nos cai em cima esta Pandemia e vira o mundo ao contrário. Ao olhar para os elevados índices de consumo sem ter em conta o contexto, o cenário pareceria promissor. Vejamos mais alguns gráficos, onde constatamos uma subida de audiência nos programas de todos os canais generalistas.

Mas este tempo em que vivemos diferencia-se de tudo o que já tenhamos experimentado. A publicidade, por exemplo, tem decrescido no mercado à mesma velocidade que o consumo aumenta. Mais um paradoxo desta estranha conjuntura.

Assim, e ao invés de uma oferta acorde com a grande demanda, a televisão em tempos de Coronavírus ceifa projetos, interrompe produções, congela programas e é feita sem público em estúdio, com pouca variedade de temas, com entrevistas manhosas por “Skype” e uma qualidade técnica pouco abonatória para o padrão das generalistas.

Mas lá estamos nós: ligados, atentos e a consumir. A responsabilidade é, e utilizando uma expressão muito batida nos tempos atuais, de um inimigo invisível…

Fonte: Dados GFK – Software Marktest

Nesse contexto, a SIC é, sem dúvida, o canal que melhor tem sobrevivido ao apresentar uma oferta mais parecida com a “normalidade”. Líder indiscutível a estação aproveita para se diferenciar e consolidar essa perceção junto de um auditório sobrelotado.

No sentido contrário, tanto a RTP como a TVI sofrem de forma mais evidente com a Covid-19 ao oferecer uma grelha mais pobre aos seus espectadores, uma vez que tiveram mais projetos cancelados e/ou alterados. Senão, vejamos a tabela abaixo.

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Por terem uma aposta mais voltada para programas em direto e porque estavam em fase de lançamento de apostas muito fortes, RTP1 e TVI demonstram maior vulnerabilidade em sua oferta. Esta última, em boa hora, ainda conseguiu manter a estreia de “Quer o Destino”, sua nova aposta para o horário nobre, cujos resultados são animadores e, sem dúvida, estão a aproveitar esta fase de grande consumo dos lares portugueses. Não fosse esta, o canal de Queluz teria pouco com o que se agarrar. Em meio a uma turbulência que já dura demasiado tempo, o Grupo Media Capital enfrenta ainda um futuro incerto após o falhanço da sua compra pela Cofina.

Ainda assim, e como nota positiva, apesar de todo esse paradoxismo, aquilo que os canais generalistas estão a oferecer tem demonstrado força suficiente para criar apetência no público. Ou não subiriam as audiências. No curto prazo, portanto, estão de parabéns por aguentar este embate (com a Informação a fazer um papel absolutamente decisivo).

Contudo, no médio e longo prazo dificilmente teremos boas notícias. As principais produtoras de ficção, por exemplo, estão com as suas linhas de produção completamente paradas. Plural, SP Televisão e Coral Europa, responsáveis pelos maiores êxitos de audiências na televisão em Portugal, precisam de retomar o mais brevemente possível as respetivas produções. Ou os portugueses deixarão de ter no horário de máxima audiência o seu prato principal: novelas! Aguardamos as cenas do próximo capítulo.