A corrupção em Portugal não é um acidente de percurso — é herança genética. Um ADN, quase, que mistura tragédia grega com opereta: líderes caem, processos arrastam-se, e o país, entretido a discutir se 75 mil euros em notas cabem numa garrafa de vinho, esquece-se de perguntar como diabo lá foram parar. A resposta, claro, está no óbvio ululante: quando o poder  é um tacho, até um vinho verde vira depósito de pecados.

Os eleitores, coitados, já nem se indignam. Aprendemos a arte do desenrasca cívico: votamos  em figuras sob não por acreditar na sua inocência, mas por desconfiar da alternativa. É como escolher entre um táxi com o motor fundido e um uber que promete viagem grátis mas cobra em influências. Preferimos o diabo conhecido — desde que ele, pelo menos, saiba onde fica a bomba de gasolina.

A esquerda dirá que isto é cinismo. A direita radical, que é resignação. Ambos erram: é realismo  de quem já viu demasiados “messias” tropeçarem em notas de 500 e processos prescritos. A  verdadeira piada? Enquanto Sócrates ensaia o seu monólogo final no tribunal (uns 11 anos  depois de detido, vá lá!), o país debate-se com uma justiça que parece ter adotado o ritmo de  um fado — lenta, melancólica e previsivelmente inútil.

Há quem acredite que a solução está em megapacotes legislativos. Mas Portugal não precisa de mais leis; precisa de menos impunidade. Um processo que demora mais do que uma geração a  chegar a julgamento não é justiça: é ficção. E os prazos de prescrição? Esses são o equivalente jurídico de um “aviso de navegação” do Google: “Desculpe, não é possível condenar este  político. O destino foi cancelado.”

Os eleitores da Madeira, pragmáticos como almirantes numa tempestade, deram a receita: em  vez de purgas éticas, optaram por um governo que, pelo menos sabe onde estão as chaves da  região. É um voto de confiança. E quem os critica devia experimentar gerir um orçamento  familiar com a inflação a galopar e a moral a definhar.

O grande equívoco da nossa era política é achar que combater a corrupção exige santos. Não  exige. Exige gestores — dos bons, daqueles que sabem que um contrato público não é um  bilhete de lotaria para amigos, e que um cargo ministerial não é um estágio para CEO. Enquanto  isso, continuamos a ter líderes que tratam o Estado como herança de família: uns fazem-nos corar, outros fazem-nos falta… de ar.

Portugal precisa de menos teatro de moralismos e mais circo de virtudes. Um país que aceita  que a corrupção prescreva antes da vergonha é um país que trocou a ética por um spoiler alert:  já todos sabemos o final. A solução? Simples. Tratar a política como um contrato de aluguer: se o inquilino deixar lixo no poder, despeja-se. E se a justiça não conseguir acompanhar, troca-se a fechadura. Afinal, quando o peixe apodrece, não adianta trocar o esguicho: é a rede que está  podre.