Numa das movimentadas ruas da cidade da Amadora reside, num separador central, uma estrutura metálica encostada a um poste de iluminação. É só mais um placard publicitário, onde muitas vezes vemos mensagens políticas em tempos de candidaturas, com um qualquer slogan que demonstre em curta leitura uma ideia geral do que aquilo simboliza. Menos usual, é vermos a estrutura metálica despida de poster, num taciturno rectângulo cinza, baço de cor e de mensagem. Apesar de não ter cartaz, esta estrutura mostra, escrita no que aparenta ter sido a spray cinza-escuro, as palavras “Placard do MAS”. Descobrimos o antigo dono do cartaz daquela estrutura. Era um poster do Movimento Alternativa Socialista, inevitavelmente direccionado para algumas eleições. Mas a frase “Placard do MAS” é mais do que apenas informativa sobre qual partido usufrui daquela instalação. É mais do que apenas um lembrete a todos sobre o partido pelo qual Renata Cambra e Gil Garcia guerrearam. É mais do que política. Ou melhor, é mais do que partidário. É mais filosófico do que pragmático. Tem uma aura mais mística. É sobre como a frase apanha um novo sentido pela homografia do acrónimo do partido com uma conjunção adversativa. No fundo, todos os diagnósticos políticos incidem sobre adversativas. “Portugal podia ser rico, porém…”; “A saúde podia ser óptima em Portugal, todavia…”.

Mas é o país onde se constroem argumentos com fezadas, como se a análise da actualidade fosse uma aposta em cantos ou resultados ao intervalo. Por vezes, neste país, algum perito traz uma previsão de que se nada for feito há um certo resultado. E ao fazer-se diferente, o resultado muda, e quem fez a previsão passa por arauto da desgraça que não acerta uma. Mas é raro, porque raramente algo muda muito por vontade do país.

Será um “mas” tão forte quanto um “e se”? E se juntarmos o “mas” e o “e se”? Mas e se? “Mas e se a bitola ibérica fosse como a europeia?”. Mas e se fôssemos diferentes do que somos, teria a mesma piada? É este “mas” que nos torna um povo sonhador, mas ao mesmo tempo resignado. Não somos tecnocratas. Somos românticos. Geralmente, escolhemos bem os nossos heróis. Preferimos contos de fadas, twists de última hora, underdogs. Preferimos o Portugal-França de 2016 em futebol, o Portugal-Espanha de 2018 em futsal, ou o Portugal-Estónia de 2025 em basquetebol. O herói, o melhor jogador, afastado precocemente do jogo, e a magia a envolver-se na equipa. O mesmo com a histórica vitória na Eurovisão em 2017. O mesmo com o icónico tirar de luvas de Ricardo em 2004. Por essas preferências, quase nem conseguimos interiorizar que uma das pessoas mais conhecidas do mundo é portuguesa. Que o lugar mais alto das Nações Unidas é de um dos nossos. Sabemo-lo com orgulho, mas quase o tomamos como garantido. Preferimos estas histórias, e por essa razão preferimos saber os nomes de todos os medalhistas olímpicos portugueses, do que arrecadar dezenas de medalhas todas as edições. Qual o prazer de não saber o nome de centenas de medalhistas? A mínima referência a Portugal no estrangeiro é um motivo de orgulho e admiração. Mesmo que seja má, porque nos deixa excitados ter um motivo para nos defendermos.

Não sei se é só neste país, mas reparo que quando o metro passa, há pessoas que já estavam sentadas na plataforma, e que não entram, nem vão embora. Não se mexem, continuam sentadas. O que esperam estas pessoas? Se estão na plataforma, deveriam estar à espera do metro. E se esperam alguém, porque esperam ali na plataforma e não noutro sítio qualquer? Para mim, por estarmos neste país, esperam aquela motivação de última hora para apanharem a locomotiva que os fará chegar mesmo às horas certas, ou com um bocadinho de habitual atraso. E somos respeitadores da pontualidade de chegar a algum lado com quase sempre o mesmo tempo de atraso.

O país onde as modas, o covid e o populismo demoram a entrar, mas quando entram, correm pujantemente. Como um miúdo que resiste muito a mergulhar a primeira vez para a piscina, mas depois de ultrapassada essa barreira, não consegue parar de o fazer. Enquanto não ultrapassar o medo por si mesmo, a mudança não faz os seus efeitos.

Aqui onde há sol, praia, natureza, mas há tristeza, frio, depressão e muito fogo. Onde há carros em segunda fila, muitas apitadelas, e onde quem estaciona a bloquear carros é recompensado com esse mesmo lugar de estacionamento.

Não há soluções no sentido em que a mudança pode trair a essência. Não queremos ser iguais aos outros, mesmo que os outros tragam bons exemplos, tragam mundo. Não ter soluções aparentes é também parte da nossa mística. Enquanto isso, esperamos por um placard que diga “embora” e nos faça ultrapassar o “mas”. É sempre melhor uma interjeição.