A Europa tem capital, talento e infraestruturas. O que lhe falta é alinhamento político e um mercado verdadeiramente único para transformar recursos em poder tecnológico.
Perante a ameaça da Rússia, a ascensão silenciosa, mas imperial, da China e as ambiguidades, ou mesmo deslealdades, da administração Trump, a Europa (sobretudo a União Europeia, mas extensível aos outros países não membros) confronta-se diariamente com a sua fragilidade em matérias da maior relevância.
Da dependência energética à alimentar, das matérias-primas à defesa, sem esquecer a tecnológica. A diferença é que, na energia (e em parte na alimentação) e nas matérias-primas, há limitações naturais que tornam a autonomia difícil, dadas a geografia e a dotação de recursos naturais do continente europeu. Já na defesa e, sobretudo, na tecnologia, não há nada de estrutural ou inevitável, que explique a nossa posição de dependência.
Na verdade, não falta infraestrutura, nem dinheiro, nem talento, nem capacidade à Europa para ser autónoma, ou mesmo dominante, à escala global na área tecnológica. A Europa dispõe de excelentes infraestruturas de comunicações, laboratórios e indústria. E, em termos de capital, basta uma comparação: estima-se que os agregados familiares europeus poupem anualmente cerca de 1,4 biliões de euros, face a aproximadamente 800 mil milhões nos EUA, mas uma parte significativa dessas poupanças acaba por ser investida fora da União Europeia, em vez de financiar escala e inovação no mercado europeu. Quanto a talento, a Europa tem para dar e vender: é o continente com a população mais instruída e continua a atrair capital humano extraeuropeu, precisamente pela qualidade de vida que oferece.
Então porquê esta fraqueza?
A fraqueza tecnológica (e não só) europeia decorre, assim, essencialmente de dois fatores principais: (1) uma união política incompleta no âmbito da União Europeia; e (2) um modelo social que, oferecendo das melhores qualidades de vida do mundo, nem sempre cria incentivos e condições para um crescimento económico dinâmico, rápido e “dominador”.
Quanto ao modelo social dominante na Europa, herdeiro do Estado social e da social-democracia do pós segunda guerra mundial, é fácil argumentar que continua a ser um dos mais bem-sucedidos em termos de qualidade de vida. Mas essa discussão, incluindo os seus trade-offs em matéria de dinamismo económico e risco, merece uma reflexão própria, que deixo para outra ocasião.
Já a questão da união política é incontornável. Por muito que a União Europeia seja, provavelmente, a mais bem-sucedida construção institucional da história da humanidade, promotora de paz, prosperidade e convergência, continua a ser um projeto incompleto. Criou regras comuns, uma moeda comum (para os países da Zona Euro) e um mercado interno; mas preservou tantas exceções, vetos e fragmentações que o resultado é uma Europa menos ágil, menos competitiva e, por isso, mais dependente.
Um processo de decisão demasiado frágil
Comecemos pelo processo de decisão. Em matérias fundamentais como política fiscal, alargamento e política externa, entre outras, continua a exigir-se, em muitas situações, unanimidade. O princípio pode parecer elegante: todos contam, todos concordam. Na prática, basta um país bloquear para a Europa perder tempo e, num mundo instável, perder tempo é perder poder. Com um “cavalo de Tróia” dentro do sistema, a paralisia torna-se uma vulnerabilidade estrutural.
O caso mais óbvio é o da, até recentemente, Hungria de Viktor Orbán mas, ao longo dos anos, vários países têm travado medidas de interesse comum por razões domésticas. O Reino Unido, antes do Brexit, foi um exemplo recorrente de resistência à transferência de poderes para Bruxelas. E a França tem dificultado uma maior interligação elétrica da Península Ibérica, receando que energia renovável mais barata de Espanha e Portugal reduza o peso do seu mercado interno, fortemente assente no nuclear.
Este tipo de bloqueio não é um detalhe burocrático: é o mecanismo que impede o bloco de agir como bloco. Multiplique-se este padrão por centenas de dossiers em tópicos como energia, telecomunicações, defesa, fiscalidade, dados, capital, e percebe-se porque é que, na hora de criar escala tecnológica, a Europa tropeça em “areias na engrenagem” que os EUA e a China simplesmente não têm.
Um mercado interno que ainda não é um mercado
Há ainda um segundo problema, talvez o mais decisivo: ao contrário dos EUA ou da China, a União Europeia continua a funcionar como 27 mercados fragmentados. E essa fragmentação tem custo económico real. O Relatório Draghi sobre a competitividade europeia chamou a atenção para a magnitude destas barreiras internas, sugerindo que, em alguns casos, os obstáculos ao comércio de bens dentro da UE podem equivaler a uma “tarifa” implícita muito elevada e que, nos serviços, o efeito pode ser ainda mais pesado.
Se pensarmos que muitos ficaram chocados com a tentativa da administração Trump de impor tarifas de 15% sobre produtos europeus, está tudo dito: as tarifas externas são um problema sério, mas o maior entrave à competitividade europeia continua a ser interno. Um mercado único incompleto funciona, na prática, como um sistema de “tarifas invisíveis” e, muitas vezes, mais penalizador do que as barreiras que vêm de fora.
Estas barreiras internas raramente aparecem como tarifas formais. Surgem, antes, como fragmentação regulatória; reconhecimento mútuo que falha na prática; requisitos administrativos diferentes de país para país; profissões excessivamente reguladas; e, sobretudo, um setor dos serviços e mercados de capitais que continuam, em grande medida, nacionais.
Esta incompletude tem um efeito colateral pouco discutido: também condiciona a política de concorrência. Quando se olha para 27 mercados em vez de um, torna-se mais difícil permitir consolidações que criem verdadeiros “campeões europeus” capazes de competir com rivais americanos ou chineses. Uma fusão pode, à escala de um país, parecer concentrar demasiado poder; mas, ao nivel europeu (e global), pode ser apenas o primeiro passo para ganhar escala, investir mais e liderar.
Veja-se o setor das telecomunicações: o mercado norte-americano é dominado por três grandes operadores nacionais; o chinês, por quatro. Já na União Europeia existem dezenas de grupos operadores de redes móveis. Exigimos às telecomunicações europeias que concorram globalmente, mas regulamo-las como se fossem negócios estritamente locais. O custo dessa contradição é óbvio: menos escala, menos investimento e menos liderança tecnológica.
E não é um problema exclusivo das telecomunicações. Vê-se na banca, nos seguros, na distribuição, na indústria, nos transportes e, claro, no próprio setor tecnológico.
Neste último, essa desvantagem torna-se ainda mais evidente. As plataformas digitais dependem de escala: quanto maior o número de utilizadores, mais dados são gerados, permitindo maior iteração e capacidade de investimento em produto e distribuição. Ao contrário dos EUA ou China, verdadeiros mercados únicos, num mercado europeu fragmentado, empresas originadas em Lisboa, Berlim ou Estocolmo precisam de internacionalizar as suas operações desde o início, realizando traduções, adaptando contratos, ajustando-se a diferentes interpretações regulatórias, relacionando-se com múltiplas autoridades e, frequentemente, captando recursos em ecossistemas predominantemente nacionais. Nos Estados Unidos, o acesso ao financiamento, do estágio inicial ao crescimento, é mais abundante, ágil e abrangente, viabilizando aceleração na contratação de profissionais, desenvolvimento de produtos e expansão. Na Europa, a menor disponibilidade de acesso a financiamento e os modelos fiscal, laboral e socioeconómico dificultam a escalabilidade no momento crucial de crescimento.
Isto gera um ciclo de dependência: sem gigantes tecnológicos europeus, governos e empresas apostam em infraestrutura crítica (cloud, semicondutores, software, IA, pagamentos) externa ao bloco e, ao comprar fora, financiam a escala e a inovação de terceiros. A falta de financiamento também tem um efeito perverso: muitas empresas europeias promissoras acabam por ser compradas quando ainda são pequenas, precisamente por quem já tem estruturas económicas de grande dimensão e acesso a financiamento de grande escala.
Depois admiramo-nos com a falta de autonomia. Não é apenas uma questão de soberania abstrata: é o facto de os centros de decisão, os padrões tecnológicos e até as condições comerciais passarem a ser definidos noutros continentes. E quando o poder de definir regras e preços está do outro lado do Atlântico (ou do Pacífico), a Europa fica sempre a negociar em terreno alheio e numa posição de fraqueza e dependência.
O resultado é simples: empresas europeias, com mercados de origem menores e mais fragmentados, tem menor dimensão e como tal tendem a investir menos (por cliente) do que os seus equivalentes nos EUA ou na China. Isso cria um défice estrutural de escala, investimento e inovação.
A União Europeia tem, portanto, sobretudo um desafio político: decidir se quer ser um bloco económico, político (e militar) relevante ou apenas um grande espaço regulatório (e ainda assim incompleto) e assistir à consolidação de outros impérios. E esse desafio depende, quase inteiramente, da capacidade dos Estados-membros de perceberem que a soma de 27 interesses nacionais de curto prazo não produz poder europeu. Produz estagnação.
O problema é que qualquer aprofundamento implica escolhas difíceis: abdicar de poderes nacionais, aceitar vencedores e perdedores relativos e negociar compensações. E, sobretudo, fazê-lo a 27, com histórias, sensibilidades e estruturas económicas muito diferentes.
O dilema das periferias: integração vs. centros de decisão
Se esse aprofundamento acontecer, é natural que exista uma maior concentração de centros de decisão nos atuais polos económicos europeus. Se, por exemplo, passarmos de dezenas de operadores para três ou quatro grupos pan-europeus (e o mesmo ocorrer noutros setores), é plausível que as sedes e as decisões se concentrem onde hoje já estão os maiores “players”: Paris, Berlim, Milão/Roma e, em parte, Madrid e Amesterdão.
Para países como Portugal, isto não é uma discussão concetual. Significa o risco de perder alguns dos poucos centros de decisão nacional ainda existentes e, com eles, parte do efeito de arrastamento sobre fornecedores locais, emprego qualificado e capacidade de influenciar cadeias de valor. O que acontece à atividade económica quando decisões de compras, investimento e estratégia deixam de ser tomadas em Lisboa ou no Porto e passam a ser tomadas noutro país?
Estarão os países da União Europeia dispostos a abdicar de parte da sua soberania económica e política para que, enquanto bloco, a Europa continue relevante? Ou preferirão manter-se soberanos, mas integrados numa União Europeia cada vez mais irrelevante e, como tal, em risco permanente de desintegração ou de dominação por outros blocos económicos?
Vale a pena pensar nisto e, sobretudo, estender a reflexão para lá dos “bits e bytes” da tecnologia. O verdadeiro debate é político e transcende em muito a questão da tecnologia: como transformar potencial europeu em escala, investimento e poder?