O português comum não se importa se são dois beijinhos, três ou nenhum. Habituou-se a adaptar-se — é essa a sua arte mais refinada.

O português comum entra com a mesma expressão numa tasca ou num palácio. Sabe estar em qualquer lado. Conhece bem a tasca da terra e o Palácio da Pena — um não anula o outro.

O português comum já deixou de perguntar como alguém paga uma casa. O sonho da casa própria já foi hipotecado há muito tempo.

Não perde tempo com culpas alheias. Que os privilegiados lidem com o peso da consciência. Ele lida com o peso das contas. Trabalha, e ainda assim não chega ao fim do mês.

Não quer saber se os outros se acham maus pais. Ele tenta ser um bom pai todos os dias, entre o relógio do ponto e os horários escolares.

O português comum luta — todos os dias — por sobreviver neste retângulo à beira-mar plantado. Luta para pagar a luz, a renda, o supermercado. Luta por uma casa que não o afogue em prestações. Luta para chegar a horas, mesmo quando os transportes falham, mesmo quando o trânsito é um labirinto sem saída.

O português comum desespera por uma vaga na creche, no pré-escolar — em qualquer lugar que o ajude a conciliar tudo aquilo que é impossível conciliar.

Luta por uma licença de parentalidade mais longa, mais justa, mais digna. Num país que clama por mais nascimentos, ser pai ou mãe continua a ser um ato de resistência.

Quer ver os jovens a ficar, a criar raízes. Mas como, se o acesso a uma casa se tornou um privilégio?

Quer constituir família, sim. Só precisa de uma maternidade que ainda esteja aberta.

O português comum exige uma escola pública capaz de acompanhar a vida de quem tem apenas 22 dias úteis de férias e filhos em casa durante semanas e semanas de interrupções. ATLs? Um luxo semanal.

Luta por uma consulta no Centro de Saúde — uma, só uma — sem ter de decifrar labirintos digitais e chamadas eternas.

Precisa de perceber a transição energética, não em teoria, mas no impacto diário da fatura ao fim do mês.

Precisa de compreender a transição digital, porque não vive fora dela.

Precisa de entender a economia, as finanças, o vocabulário dos investimentos — porque já percebeu que ninguém o vai ensinar.

Acima de tudo, o português comum precisa de sentir que é ouvido. Que o país o escuta. Que alguém tenta, de verdade, resolver os seus problemas.