Houve um tempo neste Portugal à beira-mar plantado em que a água congelava dentro de casa. Transportava-se em cântaros, porque a água canalizada ainda não tinha chegado a todas as habitações. As janelas eram de madeira, os vidros finos, muitos já vencidos pelas intempéries ou pelas boladas dos jogos de futebol de rua, remendados com plástico.

As casas tinham uma única fonte de aquecimento: a lareira. Hoje romantizada, dotada de uma estética que o cinema ajudou a eternizar, mas que no quotidiano sempre foi pouco eficaz. Consome muita lenha e distribui mal o calor.

Esse tempo não acabou, houve melhorias, mas pouco sólidas. O nosso parque habitacional é envelhecido e muito pouco melhorado.

Apesar de pequeno, Portugal apresenta grandes disparidades térmicas. Não somos, de todo, um país de clima ameno — com exceção das ilhas. E este é um ponto central do debate: enquanto os verões são cada vez mais longos e extremos, os invernos, sobretudo no interior, continuam a ser agrestes e intensos.

Em Portugal, ter casa própria é comum e continua a ser um ativo altamente valorizado, em especial pelas gerações mais velhas. Foi algo que os nossos avós e pais ainda conseguiram alcançar. Mas essa casa, muitas vezes, não foi acompanhada de investimento ao longo do tempo. E menos ainda depois da reforma. Quando as despesas com a saúde se tornam sufocantes, sobra pouco para obras de melhoria. O resultado é conhecido: idosos acamados em casas cheias de escadas, casas de banho inadequadas e sem qualquer sistema de aquecimento capaz de garantir conforto ou qualidade de vida.

A isto chamamos pobreza energética. Andar de casaco dentro de casa ou mesmo de roupa térmica não é uma opção, é um sinal de exclusão. Centros comerciais cheios no pico do inverno ou no pico do verão dizem mais sobre o desconforto habitacional do que sobre hábitos de consumo: as pessoas procuram um espaço climatizado porque em casa não o têm.

A União Europeia reconheceu finalmente este problema. A Diretiva (UE) 2023/1791, relativa à Eficiência Energética, estabelece pela primeira vez uma definição comum de pobreza energética, entendida como a falta de acesso a serviços energéticos essenciais — aquecimento, água quente, arrefecimento ou iluminação — causada por fatores como baixos rendimentos, preços elevados da energia e fraca eficiência energética das habitações.

Os números são preocupantes. Estima-se que mais de 34 milhões de pessoas na União Europeia vivam em situação de pobreza energética. Portugal surge, de forma recorrente, entre os piores países europeus. Segundo a Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2021-2050, entre 1,2 e 2,3 milhões de portugueses vivem em pobreza energética moderada, e até 740 mil em pobreza energética extrema.

Estamos perante um fenómeno complexo, que não se mede por um único indicador. Baixos rendimentos, edifícios ineficientes, equipamentos obsoletos, custos elevados da energia e fraca literacia energética cruzam-se e reforçam-se mutuamente. Esta é uma das faces menos visíveis da pobreza, mas com impactos profundos na saúde, na dignidade e na igualdade de oportunidades.

Têm sido lançados programas como o E-Lares, com o objetivo de melhorar a eficiência energética das habitações. Mas será este o caminho suficiente? Num momento de forte pressão sobre a construção e a habitação, estamos a pensar de forma estrutural e eficiente? E, sobretudo, como responder à realidade dos idosos que já não têm capacidade física, financeira ou emocional para enfrentar processos de obra longos, caros e desgastantes?

Se queremos um país mais competitivo, mais justo e mais resiliente, precisamos de começar pelo básico: casas onde seja possível viver com conforto e dignidade. Ser uma das melhores economias não chega quando, dentro de casa, continuamos a viver com frio.