Quando as mulheres portuguesas ingressaram no mercado de trabalho, a responsabilidade do cuidar continuou, quase por reflexo, a recair sobre elas. Mas hoje, procuram carreiras valorizadas e com futuro. E a verdade é desconfortável: em Portugal, ser cuidador continua a ser visto como um trabalho menor — quando é precisamente uma das profissões que continuará a ser indispensável, mesmo com todos os avanços da inteligência artificial.
Em pleno século XXI, perante o envelhecimento demográfico e a multiplicação das situações de dependência, o grito coletivo devia ser inequívoco: cuidadores precisam-se, já! A falta de profissionais qualificados no setor social não é um conceito abstrato; é uma crise diária. Quem trabalha numa instituição conhece bem essa urgência: faltam braços, as necessidades aumentam e, mesmo em dias de greve — quando muitas trabalhadoras ficam em casa com os filhos — o dia tem de acontecer. Não há “equipa B”. O cuidado não pode parar.
Os dados recentes da OCDE e da Eurofound confirmam o que o terreno já é uma evidência: a população idosa cresce muito mais depressa do que o número de cuidadores formais. Entre 2022 e 2035, serão necessárias dezenas de milhares de contratações só para acompanhar o ritmo demográfico. A força de trabalho neste setor permanece profundamente feminina, envelhecida e sujeita a condições pouco atrativas: salários baixos, horários exigentes e escasso reconhecimento público.
Num país como Portugal, onde grande parte do apoio a idosos, pessoas com deficiência e dependentes continua a ser assegurado por cuidadores informais — quase sempre familiares — a pressão torna-se insustentável. As famílias, os municípios e as instituições acumulam responsabilidades sem meios proporcionais. E embora existam milhares de cuidadores informais registados, os apoios públicos continuam aquém do necessário, com impacto direto na qualidade e na dignidade do cuidado prestado.
A resposta não é apenas técnica; é política e social. Começa por assumir aquilo que há muito se sabe: cuidar é trabalho — trabalho exigente, essencial e demasiado importante para continuar invisível ou desvalorizado. Cuidar é um pilar de coesão e justiça social.
Por isso, é imperativo:
- Reforçar contratações imediatas no setor social, garantindo vagas dignas em lares, centros de dia e serviços domiciliários.
- Valorizar a carreira de cuidador, com salários justos, estabilidade contratual, formação contínua e progressão real.
- Apoiar cuidadores informais, integrando-os no sistema formal e garantindo incentivos que aliviem a sobrecarga familiar.
- Assumir, enquanto sociedade, a urgência desta causa — cada mês sem resposta é uma vida potencialmente menos digna e menos segura.
“Cuidadores precisam-se!” Não apenas para preencher turnos, mas para preencher um vazio moral. Precisa-se respeito, políticas sérias e ação imediata. Ignorar este apelo é deixar a vulnerabilidade entregue à negligência. E isso, simplesmente, não pode esperar