Vivemos um desequilíbrio perverso. A ciência é hoje constantemente chamada a justificar-se e a explicar-se, enquanto quem a ataca opera num terreno onde nada precisa de provar: basta insinuar, basta levantar dúvidas. A pergunta essencial raramente é colocada — se rejeitamos a ciência, qual é a alternativa? Negar esse caminho é transformar a ciência na nossa Cassandra, onde tudo passa a ser válido. E este não é apenas um problema científico; é um problema profundamente democrático.
Como refere Adolfo Mesquita Nunes, “a ciência e a democracia partilham uma convicção fundamental: ninguém tem o monopólio da verdade”. A própria evolução do conhecimento científico demonstra o método necessário — testar hipóteses, confrontá-las com dados e seguir um percurso de prova. Em democracia, a premissa é semelhante: o confronto de ideias e o debate público servem para encontrar o melhor caminho para a realidade que se pretende construir.
Num regime democrático, nenhum político deseja uma sociedade sem prosperidade. O que diverge são os meios para lá chegar, consoante visões mais à esquerda ou mais à direita. Essa divergência é legítima. O que não é legítimo é abdicar dos factos como base comum para essa discussão.
É aqui que reside o maior risco do nosso tempo: o mundo da pós-verdade. Sem dados fiáveis, torna-se impossível avaliar políticas públicas. Sem uma cultura de rigor e de prova, sobra apenas a demagogia. Imaginar um mundo onde a verdade deixa de contar é demasiado perigoso para o seu próprio desenvolvimento. Ciência e democracia caminham de mãos dadas: as decisões coletivas devem assentar em factos e verdades partilhadas.
A democracia distingue-se de outros regimes por ser o espaço onde opiniões diversas coexistem sobre uma base comum de factos comprovados. A ligação entre ciência e democracia é estrutural, porque políticas públicas devem assentar em evidência — e não em quem grita mais alto.
Tal como na ciência, também na democracia é essencial questionar, procurar novas formas de intervir e melhorar. Mas isso não pode significar cair na lógica da pós-verdade, onde se manipulam vídeos, títulos ou narrativas para servir “verdades” convenientes. As falsas narrativas disseminam-se hoje a uma velocidade vertiginosa; a reposição da verdade é sempre mais lenta e menos sedutora.
Acresce que muitos dos grandes problemas contemporâneos não têm soluções imediatas. Exigem análises complexas, tempo e ponderação — tudo aquilo que escasseia numa realidade medida em segundos, dominada por um scroll incessante e pela procura constante de estímulo. Defender os factos e a ciência não é um exercício académico: é uma condição essencial para preservar a própria democracia.