Pouco mais de um mês se passou desde a tomada de posse do atual executivo norte-americano. Entre promessas e ameaças, o início do novo mandato de Donald Trump ficou especialmente marcado por uma firme posição relativamente à deportação em massa de imigrantes ilegais e pelo anúncio da aplicação de novas tarifas ao comércio externo. Se o primeiro aspecto me parece relativamente justificável, o mesmo não posso afirmar em relação ao segundo.
David Ricardo, o grande defensor das trocas comerciais como fonte de prosperidade e eficiência produtiva, deve estar neste momento a remexer-se na sua campa. Aquilo que Donald Trump apelida de protecionismo para “equilibrar o jogo”, rapidamente poderá escalar para uma abrupta crise inflacionista e ainda incentivar a ineficiência produtiva em território norte-americano.
Para melhor compreender de que maneira estas medidas podem conduzir a tal desfecho vejamos a Teoria das Vantagens Comparativas de David Ricardo, que surge em resposta complementar a Adam Smith e à sua Teoria das Vantagens Absolutas. A vantagem comparativa refere-se à capacidade de um país produzir um determinado bem com um custo de oportunidade menor em relação a outro bem, quando comparado com outro país. Assim, mesmo que um país tenha vantagem absoluta na produção de dois produtos, deve especializar-se naquele que lhe oferece um menor custo de oportunidade. Concentrando forças produtivas nos bens que são mais eficientes e recorrendo ao comércio internacional para se munir dos restantes, os países têm aí uma oportunidade de maximizar a sua utilidade e beneficiar de maior variedade de bens a preços mais baixos.
Donald Trump procura reduzir o nível de dependência dos Estados Unidos face a produções externas e esta medida serve exatamente como dissuasor das importações. Num cenário ceteris paribus, isto fará reduzir o défice da balança comercial, mas a que custo? Ora vejamos, diminuindo as importações e mantendo-se constantes as necessidades dos consumidores, vai existir uma acrescida pressão sobre a produção interna para que estas necessidades sejam atendidas.
Assim sendo, isto resultará numa combinação de dois cenários:
1. A produção interna não é capaz de responder à procura e os preços sobem de maneira generalizada nos setores onde a quantidade importada diminui.
2. Importar bens e serviços terá um custo adicional e para fazer face a esse aumento, o preço do produto final sobe.
A história não se repete, mas rima. Entre 1815 e 1845 o governo britânico aplicou as chamadas Corn Laws – um conjunto de tarifas sobre a importação de cereais, com vista a apoiar os preços dos produtores nacionais contra a concorrência externa. Expectavelmente, esta medida causou a subida do preço dos cereais, afetando de forma generalizada as populações rurais. O mesmo podemos esperar que aconteça nos EUA.
Se a curto prazo as tarifas podem atuar como reforço da receita do Estado, a longo prazo terão um efeito diametralmente oposto: irão isolar os Estados Unidos, reduzir a eficiência produtiva e comprometer o crescimento económico. Os maiores prejudicados serão os cidadãos norte-americanos, que estarão a pagar o preço do ego do Presidente Trump nesta guerra comercial.