Assistimos em Lisboa a uma campanha sem precedentes de caça ao voto dos imigrantes pelo Partido Socialista que é preciso denunciar publicamente. O grande momento de oportunismo político teve lugar à volta dos recentes acontecimentos na Rua do Benformoso, na freguesia de Santa Maria Maior, mas não começou nem terminou ali. Continua agora mesmo, a caminho ou a reboque das eleições autárquicas, à volta da construção da polémica mesquita da Mouraria, num processo de expropriação de três edifícios na mesma rua, que põe em causa o direito de outros cidadãos e merece a atenção de todos, a começar pelas autoridades.
Como garanti na última Assembleia Municipal de Lisboa, mantenho contactos permanentes com os residentes do Bangladesh e também com a embaixadora em Portugal, Rezina Ahmed – e faço questão de insistir que a comunidade imigrante não tem qualquer problema em que não seja construída mais uma mesquita naquela zona. Isto porque, como afirmei, já existem várias mesquitas naquela área tão restrita – e sei que a maioria dos imigrantes quer ser integrada e dispensa viver em guetos fechados, ao contrário do que defende o PS.
Compreende-se que os socialistas queiram tomar conta dos imigrantes, para tentar conquistar votos, mas pode sair-lhes o tiro pela culatra. Percebe-se, por exemplo, que queiram apresentar o Sr. Rana Taslim Uddin – aliás, um dos grandes impulsionadores da mesquita da Mouraria, protocolada em 2013 com o então presidente da Câmara de Lisboa, António Costa – como “o líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa”, por se tratar de um ativista e militante do PS, que tem a grande vantagem de falar português e mantém como principal objetivo o recrutamento de adeptos e militantes.
Nós, na Junta de Freguesia de Arroios, defendemos todos os fregueses, todos os habitantes deste nosso território, incluindo naturalmente os imigrantes legais das mais de 80 nacionalidades existentes. Mas, repito, não os queremos instrumentalizar, como o PS faz, despudoramente, numa permanente caça ao voto.
Hoje, como sempre, defendemos que a imigração é um assunto demasiado delicado e importante para ser deixado nas mãos dos extremos. Queremos uma imigração ordenada, humana e integrada, com rigor à entrada e humanidade no acolhimento. Não queremos uma política de “portas escancaradas” – como aconteceu durante mais de uma década de políticas socialistas no Governo e na cidade de Lisboa – para depois os imigrantes serem alvo de redes de tráfico humano e viverem em tendas nas ruas ou amontoados em casas sem condições. Até o líder do PS, Pedro Nuno Santos, já reconheceu que é profundamente errado dar vistos pela mera “manifestação de interesse”, para espanto e oposição de muitos dos seus camaradas de partido.
A Junta de Arroios foi alvo da perseguição e dos ataques de várias figuras pardas do PS quando anunciámos que nos recusávamos a dar indiscriminadamente atestados de residência sem um título válido de residência. Como aconteceu no passado, na anterior gestão socialista, quando foram passados mais de 10.000 atestados sem qualquer rigor. A então ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, foi uma das que se pronunciou nessa altura, dizendo que “repudiava estas atitudes, que são limitadoras dos direitos dos cidadãos imigrantes”. Para ela e para o PS, bastava a existência de duas testemunhas para serem emitidos estes títulos de residência, acabando os imigrantes nas mãos das redes de tráfico de seres humanos.
Temos visto no que resultou esta política de facilitismo, para não lhe chamar pior, com as notícias que indicam que a PSP e a Polícia Judiciária continuam a investigar diversos indícios que apontam para a existência de redes que garantem falsos contratos de arrendamento e de trabalho para obter os respectivos atestados de residência através de juntas de freguesia. É este tipo de informações que faz crescer os extremos, à direita como à esquerda.
Li, com algum humor à mistura, mas também com estupefação, um comunicado de imprensa do PS em Arroios, em que sou acusada de “sentimentos xenófobos e racistas”, por ter posto em causa a construção da nova mesquita e a falta de legitimidade do Sr. Rana para representar a comunidade do Bangladesh. Logo a mim que tenho todo o orgulho em ter nascido em África e de ter vindo para Portugal ainda criança, depois do 25 de abril de 1974 – mas também do meu passado como assistente e juíza social.
A verdade é que o PS nunca aceitou que perdeu as eleições em Lisboa e, ainda mais estrondosamente, na freguesia de Arroios, onde ficou reduzido a um núcleo sem ideias e sem argumentos que se esgota no enxovalho “à bloquista”, como nunca aceitou também que na presidência da Junta está uma mulher portuguesa que nasceu em Moçambique, sem medo e sem papas na língua. Habituem-se.