Na sexta passada, o Papa dirigiu um discurso tão longo como importante ao corpo diplomático acreditado na Santa Sé. E, nesse discurso, em várias partes, sentiu a necessidade de recorrer a Santo Agostinho, nomeadamente à colossal “Cidade de Deus”, para criar uma moldura interpretativa dos dias de hoje. Mas o que é que devíamos ter aprendido com isso?
No final do período da República Romana, Cícero defendeu que a cidadania era algo próximo a uma associação fundada por um consenso jurídico. Agostinho, no entanto, mostrou como isso era radicalmente insuficiente. A certo ponto, numa das suas obras, escreveu que também uma quadrilha de piratas pode ter leis internas. Por isso, definiu que aquilo que define uma cidade, e que pode estabelecer uma cidadania, é, antes de tudo, e acima de tudo, “um amor comum”.
Ou seja, ser do consenso, ou ser contra o consenso, pouco vale se não sabemos o que amamos em comum. Ser do consenso, ou contra o consenso, querer defendê-lo, ou destruí-lo, reformá-lo ou protegê-lo, é inevitavelmente a mesma coisa, porque, para usar da linguagem de Agostinho, sem “um amor que faz ‘um só coração’ de muitos”, estamos sempre a partir do “amor a si mesmo”. Ora, em Portugal, falta esclarecer o que amamos em comum.
Não por acaso, nesse mesmo discurso, Leão XIV disse ser necessário “um entendimento sobre as palavras e os conceitos que elas representam”, porque quando elas “perdem a sua correspondência com a realidade e a própria realidade se torna sujeita a opiniões”, a linguagem deixa de “ser o meio privilegiado da natureza humana para conhecer e encontrar, mas (…) torna-se cada vez mais uma arma com a qual se engana ou se atinge e ofende os adversários”.
Tal tem acontecido com o enganador propósito de defender a liberdade de expressão. Mas isso é um equívoco. Numa deriva quase orwelliana, e sem dúvida paradoxal, a tentativa de desenvolvimento de uma nova linguagem, apresentada, até, como mais inclusiva, tem resultado na redução da liberdade. A liberdade de consciência e a liberdade religiosa só são aceites quando se adaptam, quando servem, quando, enfim, são como o Melhoral: nem fazem bem, nem fazem mal.
Enquanto cidadão, não deixo de sentir algum espanto, quando vejo em jornais, rádios e televisões, feiras, mercados, lojas, café e avenidas pejadas de bandeiras e de gritos de vitória, e dificilmente alguém interessado a marcar o ponto da liberdade de consciência e de religião sem vedetismos.
Num “Quarto só seu”, Virginia Woolf diz que “As mulheres têm servido como espelhos que refletem os homens em tamanho duplo”. Não entrando em discussões sobre o patriarcado, parece-me que a Portugal acontece o mesmo. Servimos de espelhos para que algo, ou alguém, se reflita. Gostava que fossemos outra coisa.