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1 Estou a caminho de Paris num voo da TAP. Entre o momento em que reservei o voo e o dia de viagem, a TAP esteve quase a desaparecer. Recuperou com uns milhões administrados de emergência, o equivalente à adrenalina para o choque anafilático. Apesar do tratamento, ainda se sente a respiração difícil premonitória de recaída. O espaço para as pernas é diminuto, as cadeiras não reclinam e já fui avisada de que os snacks são pagos. Nada de novo. A tripulação é jovem, dinâmica, mais simpática do que atenta, mas ninguém precisa de muita atenção a caminho de Paris. Distraio-me entre um livro e a tentativa de ver alguma coisa do outro lado da janela. No conjunto de cadeiras à minha frente, zona da saída de emergência, viajam um homem alto, de óculos escuros e máscara no queixo, na coxia,  e outro homem mais baixo, entroncado, com um chapéu de feltro na cabeça, à janela. O lugar do meio está vazio. Já estamos com uma hora de viagem quando uma mulher vem até à fila e fala com o homem da janela. Não percebo o que diz, deduzo que viaja com ele. Afasta-se e volta passado uns minutos. Traz um saco. Senta-se na cadeira do meio. Do saco sai um pacote em que mexe repetida e ruidosamente. Sentada na cadeira atrás da dela, sem a ver, e confinada a um mundo de viagens sem snacks gratuitos, imagino-a a retirar tiritas de milho de um pacote inesgotável. O som tornou-se mais forte e a cadência mais repetitiva. Foi quando vi, no alto da cadeira, as suas mãos enérgicas, precisas, a massajarem uma touca, como se fora de banho, mas de papel, na cabeça. Não eram cheetos. Era a higiene capilar. Ao fim de uns cinco minutos, a touca saiu, o cabelo mostrou-se, cheio de espuma. A massagem continuou com a touca na mão: esfrega à frente, esfrega atrás, esfrega de lado, esfrega da raiz à ponta do cabelo. Desaparece a touca, vem o pente. Grande, dentes largos. Ali, entre um passageiro e outro, a iniciar a descida para Orly, penteia, alisa o cabelo, gesto atrás de gesto, uns cabelos ficam presos nos dentes do pente, outros soltam-se.  E isto sem que a TAP cobre o uso das casas de banho.

2 Sento-me no auditório da Gulbenkian quinze minutos antes do início do concerto. O movimento da sala contrasta com o palco quase vazio. Nele só um homem sentado ao piano. De gorro vermelho, roupa escura, discreto, aquece ao piano indiferente à azáfama das cadeiras na sala. Soube mais tarde que era o próprio Ivo Pogorelich. Nas laterais do palco, dois painéis electrónicos indicam o programa do concerto, o tempo de duração e avisam para se desligarem os telemóveis.  A sala está quase cheia, já sem as restrições da distância de segurança. Não fossem os certificados de vacina, as máscaras e o pedido para aguardarmos pelas indicações de saída no final do espectáculo, dir-se-ia estarmos num mundo sem pandemia. Ouve-se em voz off o habitual acolhimento, a informação de proibição do registo de som e imagem, e o pedido para se desligar o telemóvel. O palco ilumina-se. O pianista chega, senta-se, o concerto começa. Nos primeiros dez minutos um telemóvel toca. É imediatamente abafado. Duas filas à frente, outro telemóvel ilumina-se: alguém filma o pianista. Apenas uns segundos e apaga-se. Na fila de trás, um telemóvel vibra, em silêncio. Ninguém o desliga, cala-se por desistência. Ao meu lado, uma mulher espera ordens para mudar o rumo do mundo, ou assim parece pela forma como acede ao telemóvel que tem no colo, de cinco em cinco minutos. A luz forte do ecrã incomoda-me, distrai-me. Já não é a Fantasia de Chopin que me prende às mãos de Pogorelich, é a imagem daquele telemóvel atirado ao chão, esmagado por uma bola demolidora, devorado por um triturador de papel, destruído por uma espada de laser. Obrigo-me ao exercício civilizacional: sou o que faço, não o que penso. Discretamente peço-lhe que retire a luz do telemóvel. Ela pede-me imensa desculpa, nem se tinha apercebido, e de imediato guarda o telemóvel na carteira. Volto ao piano, contente por não ter uma arma.

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